Sob o ponto de vista socio-educativo, as oficinas de capoeira do Berimbau da Cidadania oferecem alternativa de atividade e entretenimento a centenas de jovens de regiões carentes da cidade. No conjunto São Lourenço (zona sul), o professor Vanderlei Pires, chamado mestre Vande, dá duas aulas semanais a um número fixo de 26 alunos, entre sete e onze anos. ''No começo, enfrentamos dificuldades porque entendiam a capoeira como algo atlético, uma luta. Mas o foco do trabalho é lúdico, no prazer, no resgate da auto-estima'', diz o professor.
Num público em que certas tentações da vida de adolescente, como as drogas e as ruas, ainda não se apresentaram, o objetivo do trabalho é integrar as crianças e estimulá-las a vôos mais altos do que o cenário mais próximo sugere. ''Pobre, às vezes, tem a mentalidade de que filho de pedreiro tem que ser pedreiro. Incitando a criatividade das crianças, ensinamos a elas que elas podem ser o que quiserem. Um advogado, um jornalista'', explica mestre Vande.
Nas aulas no São Lourenço, o pequeno Deivid Antunes Cordeiro, 10 anos, é sempre um dos mais entusiasmados. Já sabe tocar o berimbau com habilidade, faz bem todos os movimentos e até ajuda a orientar os colegas. ''Pratico capoeira desde os seis anos. Foi o primeiro esporte que eu fiz. Me ajuda muito, sinto que me desenvolvi por causa dela. Meu sonho é virar mestre'', diz o menino.
Anande das Areias explica que é este resgate de auto-estima que faz com que o Berimbau da Cidadania tenha maior apelo entre adolescentes. ''Nesta idade, muitas vezes o jovem está envolvido com drogas. O usuário é geralmente submetido ao que chamo de pedagogia do sofrimento, onde é forçado a sentir vergonha de si mesmo. Na capoeira expressiva, enfatizamos os potenciais do aluno. Ele pode se sentir capaz de fazer muitas coisas: cantar, tocar um instrumento, inventar uma melodia, dançar. E ele se sente necessário num grupo, o que é essencial'', diz Anande.
O professor Clodoaldo Nogueira dá aulas na escola municipal Atanázio Leonel, no conjunto São Jorge (zona norte). Conta que às vezes, quando chega ao colégio, pega alguns dos alunos fumando maconha. ''Infelizmente, nem sempre é possível mudar a mentalidade do jovem de uma hora para a outra. Mas só o fato de eles estarem aqui na escola, realizando algo saudável, longe das drogas e das ruas por duas horas, já é algo bom'', explica Clodoaldo. ''Muitas vezes, eles chegam agressivos de casa. Aqui, esquecem tudo''. No São Jorge, comparecem 26 alunos entre 14 e 17 anos.
Alex Alves Araújo, 17 anos, agradece pela capoeira tirá-lo das ruas nas horas vagas. ''Antes, eu ficava por aí andando, sem fazer nada. Também sentia que não era muito comunicativo, não falava com as pessoas. Hoje, sou uma pessoa melhor'', diz o aluno.
Entre seus alunos, Clodoaldo destaca a mudança de Cleuza Aparecida Ribeiro, 15 anos. Ela mora no São Jorge apenas com a mãe, que trabalha fora e chega em casa todos os dias às 22 horas. No grande período do dia em que ficava sozinha, Cleuza vivia pela rua, como ela mesma admite. ''Chegava da escola e ia para a rua, não fazia nada. Também era muito briguenta. Com a família, na escola, estava sempre arranjando confusão. Sinto que sou mais controlada agora. A capoeira me ajudou muito'', afirma.

mockup