É desencanto demais!
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de maio de 1997
Walmor Maccarini 
Aonde foi parar nossa capacidade de indignação e de revolta? - indaga o juiz de Direito Albino de Brito Freire, em artigo publicado quarta-feira nesta página e em que manifesta toda a sua capacidade de indignação com a violência, a canalhice, o avanço do anarquismo, a barbárie institucionalizada, a tolerância e covardia dos pacatos cidadãos diante disto, enfim as coisas imperfeitas deste nosso país e deste mundo. No mesmo dia e na mesma página, outro autor, Olavo de Carvalho, detona as elites socialistas, a burguesia, a massa dos pequenos intelectuais, as classes dominantes, os zumbis semiletrados que propagam modas e padrões de conduta, e também lamenta que o povo não oferece resistência. Na seção de cartas a leitora Neiva Helena Fioratte proclama seu desencanto com tudo, descrente de que devemos esperar justiça em um mundo governado por homens sem o temor a Deus.
Compreende-se o estado de desapontamento de tantos cidadãos, mas é desencanto demais! Afinal, as pessoas não são todas ruins e as coisas não estão todas erradas! É porque nos habituamos a ler e a assistir pelos veículos de comunicação, com tanta intensidade, as informações desagradáveis e tudo que exalta as imperfeições humanas. Aviões no ar não são notícia, mas os que caem - ensinam os compêndios do jornalismo mundo-cão. E muitos aprenderam por esta cartilha. Porque uma considerável parcela de leitores, televidentes e rádio-ouvintes, aprecia muito as notícias ruins. Os veículos de comunicação de massa, coniventes ou oportunistas, seguem essa vertente.
O juiz Albino Freire pergunta à moçada dos direitos humanos se tem certeza de que a volta da Pena de Talião - aquela do olho por olho e dente por dente - representaria mesmo um retrocesso. De arrepiar, partindo de um magistrado, de quem se espera a serenidade e a sensatez.
Sabemos que não é fácil conter a ira contra a violência, a corrupção, os desmandos, principalmente quando partem dos sistemas que nos governam, mas, com tudo o que temos (e no mais das vezes não conseguimos enxergar), ainda dá para degustar os raios mornos do gozo celestial que inundam corpo e alma, nas lindas manhãs de outono (palavras tão bonitas manifestadas pelo mesmo juiz articulista, aí revelando-se sua porção divina).
Todas essas coisas desastradas que nos acontecem emanam do consciente coletivo (e felizmente não da maioria), porque não conseguimos extirpar inteiramente, de nós mesmos, os componentes de ódios e iras, invejas e ciúmes, ganâncias e desamores.
Se querem punir pela lei do olho por olho e dente por dente a todos os transgressores, os que se arrogam a condição de julgadores estarão se igualando a eles, e portanto também passíveis de idêntico julgamento.
O caminho não é, certamente, a aplicação da Pena de Talião, mas a busca de nos melhorarmos. Que o princípio da autoridade funcione, que as leis (que devem ser sábias) sejam observadas, mas há muita ira no ar clamando por vingança. Se os protagonistas de tanta reação fizerem um sincero e profundo exame de consciência descobrirão que não estão derramados de tanto amor pelos semelhantes, mas saciando um oculto apetite de revanche. É um corpo-a-corpo muito pessoal. Não manifestam pesar pelas vítimas, e provavelmente nem o sintam, mas não deixam de abrir as comportas da ira represada, porque isto, mesmo que lhes envenene a alma, os faz sentir-se vingados.
Não há delito maior contra a humanidade e contra nós mesmos, por extensão contra nossa Origem, que a ira e o rancor, males/mães de todos os males.
Serenidade, compaixão, vigilância, na contrapartida da indignação e da revolta, este o caminho, porque a humanidade já experimentou todas as formas de torturas e penas impregnadas de ódios, instituiu até a pena de extermínio como sentença fatal para o condenado e como exemplo para os viventes propensos a delinquir. Uma perversa roda vida. Nada disto adiantou. Porque a humanidade corrompida não se reforma pela aplicação estrita da letra fria dos códigos, mas pelo despertar. Aquele que sentencia com a mão e a palavra movidas pela ira não está muito distante daquele a quem condena.
E a leitora que quer um homem com temor a Deus não deve crer num Deus de amor, mas num Deus perverso e punidor.
Ódios e medos que manifestamos retornam ainda mais fortes sobre cada um, qual um bumerangue, por que esta é a lei.
Com os desacertos humanos caminham, paralelas, a repressão e a condenação, e quando impregnadas de ira são tão violentas quanto aquilo que combatem. Ambas as coisas se igualam e uma nunca anulará a outra; pelo contrário, ambas crescem e encorpam-se, nutrindo-se de si mesmas. Propagam-se na mesma frequência e uma não devorará a outra, assim como uma serpente não devora outra serpente. A violência só é compatível com a própria violência. Será como pretender esvaziar o rio empurrando as águas nele existentes pela força de outra corrente. O resultado será o transbordamento.
Incumbe não aceitar como Verdade as imperfeições, mas só combateremos a Treva se acendermos, cada um, nosso candeeiro. Com tanta ira, manifestada em todos os cantos e por todos os meios, contra o mal que queremos combater, só estaremos aumentando a intensidade dessa energia inqualificada que nos envolve e nos envenena.


