É crime ser árabe? - Hélio Duque
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de junho de 1998
Hélio Duque 
Quem conhece a história do povo árabe no Brasil sabe da generosidade com que correspondeu à nova terra que os recebia: pelo trabalho dos velhos mascates, em todas as regiões do país, foi se formando um vasto mundo brasileiro, onde a identidade árabe se multiplicou na constituição democrática de famílias, fora e dentro da colônia. O Brasil tem hoje mais de 8 milhões de filhos descendentes do grande mundo árabe. Muitos com sobrenomes Andrade, Souza, Guimarães, Lobo, Pereira, Alves e tantos outros têm em suas veias, com orgulho, o sangue da descendência.
A epopéia árabe no Brasil merece um vasto, documentado e grande estudo. Sua contribuição para a formação de uma sociedade brasileira pluralista nas etnias constituiu um capítulo à parte. Ao optarem pelo Brasil como nova pátria, contribuíram e contribuem para a formação de uma nação democrática, onde as oportunidades, mercê do trabalho, fluem com igual intensidade para todos os brasileiros.
No Paraná, especialmente em Foz do Iguaçu, há uma grande colônia de árabes-brasileiros. Das maiores do país. Muitos tangidos das suas terras por conflitos desumanos, outros buscando pelo trabalho construir um mundo melhor para as suas famílias. O comércio é a atividade principal, seja em Ciudad del Leste, no Paraguai, ou Puerto Iguassú, na Argentina. Todos contribuindo para o desenvolvimento nacional.
Este comentário está sendo enviado para o presidente Fernando Henrique Cardoso e para o ministro da Justiça, Renan Calheiros. É inconcebível que num governo democrático e respeitador dos Direitos Humanos ocorra o que ocorreu, recentemente, em Foz do Iguaçu. Terrorismo de Estado é tão ou mais rigoroso que o terrorismo político-fanático-ideológico. O combate a esse tipo de patologia psicossocial é dever da cidadania. Numa apelidada Operação Brimo, promoveu-se um festim de autoritarismo promovido pela Polícia Federal, certamente com assessoria internacional, levando o desrespeito, o constrangimento, a várias famílias árabes legalmente domiciliadas em Foz do Iguaçu. Talvez porque um ministro irresponsável e boçal da Argentina, de nome Carlos Corachi, titular do Ministério do Interior do governo Menen, tenha dito que todos os habitantes das três fronteiras são terroristas.
O governo FHC e a nossa Polícia Federal não podem ser usados como instrumento de coação. Até porque, no Brasil, desde 1985 banimos a ditadura do nosso solo. Sob a alegação de desacato à autoridades e resistência à prisão, o sheik Khaled Taki El Dinin ficou detido por 24 horas. E outras dezenas de cidadãos, pela única razão de trazerem um nome e sobrenome árabes, foram detidos para averiguação. Enquanto isso, o crime, o contrabando, os assaltos correm impunemente com enorme velocidade na área. Melhor seria que os órgãos de segurança pública atacassem esses focos de marginalidade em vez de montar uma operação cinematográfica para atingir a honra e a dignidade de uma comunidade que quer viver em paz, fazendo do trabalho o fundamento das suas vidas, para que os seus filhos e netos possam, como brasileiros, viver um mundo digno, justo e fraterno. O sonho supremo de todo imigrante. Basta. Que jamais se repita, em tempo algum, a humilhação e o desrespeito cometido contra nossos irmãos árabes de Foz do Iguaçu.


