As manifestações dos agricultores deverão ter continuidade, e muito provavelmente com o endurecimento de posições, porque o pacote de atendimento do Governo não agradou a ninguém. Poderá ocorrer uma marcha a Brasília no próximo dia 10, para a tentativa de uma audiência com o presidente da República. Hoje realiza-se um encontro na sede da Federação da Agricultura do Estado do Paraná para uma decisão sobre os novos rumos a seguir. Os rumores são de que o movimento poderá radicalizar-se, de forma a criar uma situação de maior envolvimento popular que obrigue o Governo a fazer cortes nos pesados encargos que recaem sobre a atividade rural e lhe tira a lucratividade. Porque as medidas governamentais ora tomadas não resolvem o problema da falta de renda no campo. Soma-se entre as vozes que se levantam, direcionadas para a questão da rentabilidade, o professor e economista Guilherme Dias, especialista em políticas agrícolas da Universidade de São Paulo. Ele também adverte que este fundamental detalhe não foi contemplado no pacote. O presidente Lula com certeza não está informado e alertado sobre esse ponto, embora o ministro da Agricultura e Pecuária tenha conhecimento disto. Se medidas mais extremadas vierem a ocorrer de parte dos produtores rurais, é porque a condição é de fato insustentável e chegou a um ponto de impasse. Operar com prejuízo continuado leva a situações desesperadoras, até pelo receio de confisco de propriedades se as dívidas não forem honradas, porque se o Governo não tem consciência, também não tem complacência. A atividade agrícola é estratégica, porque envolve a segurança do abastecimento alimentar, e é portanto de interesse não apenas da gente da lavoura mas de toda a população. Por essa razão, este é o setor da cadeia produtiva que mais precisa ser protegido. É um contra-senso arrochar com pesado encargo tributário esse segmento produtor de alimentos e dificultar o seu desempenho. Ao contrário, o Governo deveria ser o maior interessado em cercá-lo de garantias. É inconcebível que quem se dedica à tarefa de abastecer a mesa dos brasileiros e de todos quantos importam produtos alimentícios precise fazer reinvindicações, quando o atendimento governamental deveria ser um ato espontâneo. As garantias da alimentação e da saúde – que significam o direito à segurança da vida – deveriam figurar entre as sagradas prioridades. Por isso deve ser proporcionado o indispensável suporte para as fontes geradoras e mantenedoras desses bens. Eliminar o peso dos impostos e de certos custos inerentes, sobre a agricultura, não significa apenas beneficiar os que precisam tirar dali o seu ganho mas salvaguardar o mais importante setor da economia nacional, pela razão de seus múltiplos desdobramentos, e, acima disto, proteger o abastecimento da comida, sem a qual campo e cidade não sobreviverão.

mockup