A radiografia do povo é um dos mais importantes instrumentos para balizamento do processo político. Beber na fonte popular amplia o grau de legitimidade dos nossos representantes, principalmente em momentos de decisões fundamentais para a vida do país, como os que estamos vivendo. Por isso mesmo, cabe examinar dados de pesquisas recentes feitas por institutos respeitados sobre o ânimo dos brasileiros. Uma pesquisa do Ibope mostra que cresce a confiança no futuro do país (60% dizem que a economia vai melhorar), enquanto outra, feita pelos institutos Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e de Estudos da Religião (Iuperj e Iser) indica que a confiança entre os compatriotas é muito baixa.
As duas pesquisas não são congêneres. Uma é nacional, outra é regional, limitando-se à região metropolitana do Rio, e foram feitas com objetivos diferentes. Ambas, porém, trazem dados de motivação, que flagram o estado social, permitindo cruzamentos valiosos. O brasileiro, segundo a pesquisa fluminense, é sofredor (74%), trabalhador (69%), alegre (62%). Apesar da banda lúdica que marca a alma nacional, definida pelo índice da alegria, o território do sofrimento e do conformismo parece muito extenso. Se levarmos em conta que o avanço nos mecanismos sociais recebe grande empuxo do ímpeto e da rebeldia dos grupos, temos que concluir que a passividade do caráter nacional atravanca a dinâmica das mudanças.
Ou seja, o brasileiro só gosta de reagir diante de grandes pressões ou de fortes ameaças. É capaz de produzir fatos de grande densidade sócio-política, como foram os eventos de mobilização de massa, que abriram o país para as eleições diretas e afastaram Collor. Mas, no geral, o povo é quieto e pouco afeito a iniciativas impactantes, conclusão que se extrai, também, pela leitura dos índices que o mostram sentado no pé da escada da cidadania: 50% não conhecem nada sobre direitos humanos, 44% não sabem apontar nenhum direito constitucional e 36% não conhecem nada sobre deveres. Portanto, um povo muito desinformado sobre direitos e deveres. Não é à toa que o grau de desinteresse e descrença nas instituições seja muito elevado.
Já a pesquisa do Ibope revela otimismo dos brasileiros quanto ao futuro, satisfação com a vida que levam, aumento de aprovação ao Plano Real e de confiança no presidente. De certa forma, identificam-se nessa pesquisa os mesmos traços de caráter e ânimo, aferidos pela pesquisa fluminense. Se as coisas, no plano maior da vida econômica, estão indo bem, por que mudar? Que há, ainda, dificuldades e apertos, não se duvida, que o desemprego é muito grande, todos concordam, que conviver com inflação baixa é muito bom, também é consenso; que a violência continua a se expandir, é um fato.
Por aí dá para se perceber as razões pelas quais os brasileiros aprovam as linhas gerais dos programas econômicos, mas condenam governantes e instituições que não conseguem administrar coisas como os massacres e a violência nas grandes cidades, o caos na saúde pública, o desemprego, as crianças de rua, os conflitos por terra. O povo sabe colocar em seus devidos compartimentos a estabilidade econômica e as partilhas individualistas da classe política, aceitando aquela e exercendo estas.
O que significa representar os interesses do povo? Significa, antes de tudo, fazer política e decidir à sua imagem e semelhança. Que se examine, então, os dados que radiografam seu estado d’alma. O grande tema do momento, a emenda sobre reeleição para cargos executivos, precisa ser avaliado à luz dos interesses da sociedade. Se o povo está satisfeito com seus governantes, tem o direito de reconduzi-los para novos mandatos. O castigo aos governantes incompetentes é a desaprovação, que virá, fatalmente, com derrotas eleitorais. Portanto, a reeleição não precisa ser considerada como a panacéia para curar todos os nossos males e ofuscar outros itens da pauta política. É bom conferir a voz do povo, pelos olhos das pesquisas.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e analista político.

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