O luto é em todas as sociedades uma sensação de perda irreparável. Usar determinada vestimenta ou agir de acordo com uma postura reservada é a forma mais adequada de manifestar o inexorável sentimento de quem perdeu algo de valor inestimável. Nos últimos dias, funcionários do Banco do Estado do Paraná (Banestado) nos chocaram, ao explicitarem seu luto pela venda do banco. E com razão! Uma quantidade de razão inversamente proporcional, à importância devida, que os paranaenses em geral não deram – ao fato!
Com exceção deste ou daquele lamento, localizado, a sociedade reagiu com gritante indiferença a mais este atentado do governo estadual à coisa (res) pública! A discussão sobre a privatização em moda em nosso País e sobre o sistema político adotado pelo governo federal e governos estaduais, não foram evidenciados ou enrolados como justificativas para este silêncio! É anestesia pura! Nós estamos inertes e anestesiados, pelas galopantes atrocidades cometidas contra nós mesmos!
Assim foi com o pedágio – leia-se assalto à mão desarmada – que nos impingiram nas estradas não duplicadas de nosso Estado. Assim foi com a Sercomtel, cujas ações foram parar nas mãos da Copel, que devem ter ido para o Banestado, que já foi para o Itaú... e por falar nisso... cadê o dinheiro dessa ‘‘transferência’’?! Ou será que já estamos de novo anestesiados, achando normais essas negociatas?!
O Banestado, depredado nos últimos anos, que serviu como estrebaria de acrobacias políticas e que levou a representante do Banco Central a comentar no Senado sobre a existência de ‘‘uma quadrilha’’ agindo dentro do próprio banco, foi ‘‘saneado’’ e vendido! Não sei para onde vai esse R$ 1,5 bilhão que o Itaú pagou, mas sabemos todos que cada paranaense terá que acertar com o Banco Central os mais de R$ 5 bilhões investidos no Banestado...
Contornando o mérito político da operação, a grande pergunta que se faz é a seguinte: os milhares de funcionários do banco paranaense teriam ou não o ‘‘direito moral’’ de manifestarem opinião sobre a venda do mesmo?! A greve que eles realizaram foi ou não interpretada corretamente? Não! Foi considerada abusiva! Abusiva e ofensiva ao ‘‘direito’’ do governo estadual, de levar a leilão o banco que é do povo do Paraná!
Eles foram humilhados e com eles todos os paranaenses. Por que deixaram o banco chegar nessa situação caótica? Por que essa onda de privatização e antecipação de fundos para a administração atual? Enquanto escrevo, assisto à publicidade (paga) do governo do Estado sobre a venda do banco.. cantam vitória os que conseguiram realizar ‘‘tal façanha’’! Fica-nos o consolo de que ele foi entregue a um ‘‘banco de respeito’’!
A ausência de espírito crítico e a falta de conscientização sobre a coisa pública, continuará sendo a maior cadeia que nos torna prisioneiros de nós mesmos, vulneráveis à sede animalesca que beberá até nosso sangue! A reação pode (e deve) ser pacífica, mas que seja! Que todo o paranaense, com o mesmo zelo que guarda a sua casa, vigie sobre tudo que a todos diz respeito! Assim quem sabe, frearemos a ânsia dos que sempre nos usaram para asfaltar o chão, onde desejam passar o resto de seus dias, com a única profissão que conhecem – política!
Muita tinta ainda correrá neste e noutros jornais sobre a questão das privatizações. Os favoráveis alegarão ‘‘sinal dos tempos’’; os contrários falarão em ‘‘doações generosas’’ de patrimônio público. Seja como for, tratando-se de um processo deve ser tratado como tal. Que se respeite a história e o povo cuja voz continua sendo soberana. E principalmente que não se festeje, como grande evento(!), a venda, mesmo com êxito, de uma empresa pública! Ela será sempre sinal de empobrecimento e um dedo de acusação contra os que não conseguiram administrá-la corretamente.
- PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é assessor de Comunicação da Arquidiocese de Londrina

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