E assim caminha a humanidade
E assim caminha a humanidade
Nelson Araújo de Oliveira
Se o sol continuar a brilhar, se a natureza não sofrer catastróficas mutações, enquanto durar a fecundidade humana, o homem, com certeza, continuará dominando a terra. Entre guerra e paz, entre luz e trevas, entre crença e incredulidade, assim os humanos, imortalizados pelo gênese, seguem registrando os fatos da história. Titubeando entre o falso e o verdadeiro, gerações após gerações vão-se alternando num interminável conflito entre o bem e o mal. Contudo, há um Deus nos céus, que poderá, a qualquer momento, pôr fim a esse estado de coisas.
Grandes idealistas têm-se manifestado, objetivando a qualidade do comportamento humano; mobilizam-se as instituições em busca da paz; as religiões se harmonizam numa corrente de fé e na incessante procura da perfeição. Apesar de todos esses esforços que se fazem para reconstruir o paraíso perdido, não se tem alcançado êxito. O desejo de formar uma sociedade mais justa, aos poucos vai-se desvanecendo. Já no crepúsculo do século XX, foram muitas as notícias alarmantes; outras até surpreendentes: a mídia mostrou as catástrofes que revelaram a fúria da natureza; os vírus mortais do HIV, desafiando a medicina; e a fome, agredindo, com violência, um terço da população mundial. E foi, pela primeira vez, mostrada ao vivo, pela televisão, a irracionalidade da guerra.
Hoje, ainda são poucos os que transmitem o amor, em comparação aos muitos que provocam o ódio; poucos são os construtores da paz, e muitos os fabricantes de armas de guerra. Por um lado, se vê uma farta alimentação nutritiva, e até o desperdício; por outro, a miséria, o infortúnio e a fome.
Mesmo criando leis, códigos penais, ainda que o Judiciário levante a bandeira da justiça, nada prevalecerá quando a corrupção está impregnada no homem da lei. Ainda que se multipliquem os pregadores do Evangelho, mesmo assim o comodismo, as superstições e as mordomias impedirão a busca da verdade. Mesmo na abundância de víveres, a fome se multiplicará. Porque a globalização e os países ricos usurparão os direitos comerciais e os míseros recursos dos países pobres.
Por isso, as desigualdades sociais se avolumam e, com essa escassez cada vez mais acentuada, cresce numa proporção inversa, a criminalidade, o roubo e a prostituição. Isto faz perceber que a imoralidade de hoje é superior à de ontem; e a de amanhã poderá ser maior ainda. Continuando num ritmo crescente o processo de afastamento das classes sociais, coloca-se em dúvida o futuro da humanidade.
O Brasil pode servir de amostragem universal, pois no mundo inteiro, há anões do Orçamento; existem muitos outros como aqueles vereadores paulistanos e com certeza, haverá muitos juízes Lalaus. É asqueroso relembrar esses assassinos traidores da Pátria. Com a mesma indignação recordamos outros, inclusive em Londrina.
Todavia, esquecemo-nos da corrupção generalizada do nosso povo. Resguardando honrosas exceções, esse mal se multiplica entre comerciantes desonestos, especialmente entre vendedores de produtos falsificados; entre profissionais liberais e prestadores de serviços mentirosos. Eles usam peças recondicionadas, cobrando como a original e metem para obter lucros. Outros chegam a níveis mais baixos: os pequenos vendedores de carros usados, que mandam frisar o pneu liso do veículo, dando aspecto de pneu novo, colocando em perigo a vida do usuário comprador. A somatória dessas pequenas farsas e falcatruas extrapola a grande corrupção brasileira divulgada pela mídia.
Este mundo, como se vê, qual um velho caduco de cabelos brancos e sem forças para reagir, esqueceu-se da dignidade e da honradez, cedendo lugar à mentira e ao egoísmo. Isto impede o homem de refletir, na terra, a imagem do eu Criador. Evidentemente, que em tudo há exceções; existem homens sinceros em todas as profissões, que lutam para restaurar a moralidade.
O momento religioso é desconfortável e confuso, quando ensinam que a vida está na alma que não morre, anulando, assim, a ressurreição, ponto central do cristianismo. Se a alma do morto já vive feliz no Paraíso, porque, então, ressuscitar a matéria perecível? Outros ainda se curvam diante de uma imagem de escultura, numa submissão que não condiz com nosso tempo. Existem até mesmo aqueles que dizem falar com os mortos. Alguém de sã consciência pode acreditar nisso? Fatos assim contrariam as leis do universo. O que se registrou no Livro Sagrado é que os mortos ressuscitam. Esta é a única maneira de o morto reviver.
Muitos cristãos fazem o céu silenciar para ouvirem as mais esdrúxulas expressões da linguagem humana, quando propagam a vida eterna de sofrimento. Eles antecipam o julgamento, pervertem o juízo divino e colocam Deus no banco dos réus, como se fosse um tirano torturador. Afirmam que Deus vai praticar crimes hediondos contra o homem, sua imagem e semelhança, obra de suas próprias mãos. Ao profetizar a eternidade dos pecadores não arrependidos, insinuam as mais cruéis cenas de horror, numa idéia revoltante do ego humano que vai além da sordidez, do ódio e da vingança. Um deus assim, omisso com a tortura e conivente com o sofrimento prolongado, com certeza, não é o Deus da Bíblia.
Dessa maneira, envolto em hipocrisia, imoralidades e superstições, o mundo cristão, político e religioso chega ao terceiro milênio sem uma aceitável distribuição de renda e sem conhecer os verdadeiros princípios do cristianismo.
- NELSON ARAÚJO DE OLIVEIRA é professor aposentado em Londrina





