A selvageria policial de Diadema não é só um problema de Direitos Humanos, não é um só problema da Justiça e muito menos de estrutura da Polícia Militar. É um problema de Estado do Estado Brasileiro, que não atende, ou nunca atendeu, as demandas mais banais da sociedade.
É lamentável, mas fatos como esse podem, tranquilamente, ocorrer novamente e em dose mais cavalar. Isso porque a sociedade está dividida entre bandidos e mocinhos (não tão mocinhos assim), onde o Estado não intervém como mediador, porque não tem capacidade e nem instrumental para fazê-lo.
A população pobre, a população de todas as favelas, como a favela da Naval, de Diadema, recorre aos traficantes de drogas para conseguir viver com um mínimo de dignidade. Se o Estado não dá educação, saúde e segurança esse pessoal da favela vai procurar quem dê. E não interessa se o provedor, por assim dizer, é uma santa criatura ou é o demo feito gente. É questão de sobrevivência, o pessoal vai é se defender, cuidar da sua vida.
Enquanto isso os abastados e a classe média se encastelam nos condomínios fechados, que são vigiados por milícias particulares armadas até os dentes.
Os representantes do Estado só observam, mais preocupados com o teto dos seus salários ou com o lucro dos precatórios. E fazem discurso e propaganda cor-de-rosa sobre as maravilhas que eles dizem que estão fazendo. Não tem ninguém preocupado com a guerra civil que nós estamos vivendo.
Tudo isso não é novidade. A novidade é que o caso de Diadema tem tudo a ver com as eleições do ano que vem. Se duvidar, é só perguntar ao governador Mário Covas. É claro que as coisas não vão ser resolvidas a bala, apesar disso acontecer em muito lugares. É que acontecimentos como o de Diadema podem funcionar como definidores de resultados eleitorais.
Oposição não existe mesmo. Existem pessoas que fazem oposição, mas nós estamos em falta de uma proposta de oposição, de uma alternativa de oposição. Por isso a tendência do eleitorado pode ser votar por exclusão. A reeleição vai permitir isso.
A maioria dos que estão em cargos executivos vão querer ficar nos seus postos por mais quatro anos, é obvio. Essa turma sai com uma vantagem: permanecerem na presidência, nos governos estaduais e municipais durante a campanha, além de ter a máquina administrativa nas mãos para ser usada.
Mas aí o problema: o candidato que já está no cargo já errou, enquanto aquele que vai tentar pela primeira vez ainda não teve a chance de pisar no barro com força. A reeleição significa também que os governantes vão virar uma vidraça de proporções descomunais. Campanha política não é passeio no parque. É jogo duro e tem suas regras de ferro. Sendo que a primeira delas é tentar transformar o adversário no inimigo público número 1.
E para isso vale tudo.
Não dá para pensar que Mário Covas, por exemplo, seja poupado na campanha do ano que vem, que nenhum dos seus eventuais adversários lembre do caso de Diadema, que ninguém reproduza a manchete de um jornal paulista: ‘‘PM FAZ COVAS DE BOBO’’. Seria muita ingenuidade. A estrada da reeleição é mais esburacada do que a estrada dos demais candidatos. E isso vale para Fernando Henrique, governadores e prefeitos.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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