Seu Luis não conhece Davos, na Suíça. Nunca ouviu falar desta maravilhosa região dos Alpes helvécios. Suas fronteiras geográficas não devem ter ultrapassado os limites da pátria verde-amarela. Quem sabe não foi muito além das araucárias da província. Seu trajeto diário era, pela manhã de casa à farmácia; à noite, da farmácia para casa. Por mais de trinta anos foi esta a sua rotina.
Seu Luis era farmacêutico. Destes que acabam se tornando uma espécie de médico plantonista. A vizinhança toda, quando necessitava, corria até sua botica. Era pau pra toda obra: unha encravada, dor de dente, gripe, tosse comprida, sem falar nas terríveis injeções. Era o terror da meninada. À mesa de refeições, seu nome era invocado cada vez que as crianças se negavam a comer: ‘‘Vai ficar doente e eu chamo o seu Luis’’, era a senha de todas as mães.
Após mais de três décadas, seu Luis fechou a farmácia. Perdeu ele, o auxiliar – agora desempregado – e a vizinhança. Não resistiu aos efeitos da chamada globalização e sucumbiu. Seu erro foi ser pequeno, digamos um microempresário que não conseguiu acompanhar os efeitos da modernidade, foi incapaz de transformar sua farmácia numa imensa loja de conveniência.
Ao se manter fiel à profissão, dançou. E neste jogo, não tem perdão: só sobrevivem os fortes. Talvez o grande erro cometido pelo velho farmacêutico foi ter desprezado os ensinamentos da política neoliberal ou então renunciado às questões elementares previstas no Consenso de Washington. Afinal, o Fórum Econômico de Davos acontece há trinta anos, onde se reúnem os líderes mundiais do empresariado, dos governos, do mundo acadêmico e decidem o nosso futuro segundo às suas conveniências. Por que seu Luis nunca se interessou em participar?
Nestas décadas mudou o mundo; e eles mudaram as nossas vidas e nossos valores. A oscilação na bolsa de Valores da Malásia ou da Indonésia reflete no preço do petróleo saudita, que por sua vez é negociado no mercado de Londres, vendido a uma multinacional americana, transportado num navio de bandeira liberiana ou panamenha a qualquer porto da África, Ásia ou América e que pode acabar no posto de gasolina de qualquer cidadezinha do interior do Piauí. Todas essas transações foram responsáveis pelo aumento da taxa de juros no mercado e que refletiu na crise financeira internacional, tornando seu Luis mais um inadimplente junto ao banco da esquina. Resultado: seu Luis quebrou.
Será este o admirável mundo novo? Vivemos hoje a era da informática, da robotização, da Internet. Somos capazes de contatar, em milésimos de segundos, com qualquer parte do universo a partir da cozinha de nossas casas, mas incapazes de olhar pela janela o quintal do vizinho. Esquecemos de conjugar a palavra solidariedade.
O colega de escola deixou de ser o parceiro de todo dia para transformar-se num concorrente em potencial e o companheiro de trabalho é uma ameaça constante a ascensão profissional que aspiramos. Nossos olhos vêem apenas poder e ganância; somos escravos do sucesso. Avaliamos e somos avaliados pelo carro, pelo iate, pela casa, enfim, pela conta bancária. Nossa história perdeu-se em qualquer labirinto da vida. Vivemos o hoje, o presente; o que fomos não importa.
Diariamente dezenas, centenas, milhares de seus Luises são vítimas desta gigantesca máquina chamada globalização. ‘‘Não sois máquinas, homens é que sois’’, dizia Charles Chaplin há quase um século. O difícil é continuar sendo gente num mundo de máquinas e computadores. Perdemos a consciência e a razão e ganhamos um chip. Assim é a globalização; assim caminha a humanidade...
- RENÉ RUSCHEL é economista em Curitiba
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