E a alma paranaense? - Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
Chegou-me às mãos o livro Porto de Paranaguá, um Sedutor, de Cecília Maria Westphalen, professora da Universidade Federal do Paraná, editado no ano passado, pela Secretaria de Estado da Cultura. Trata-se de um trabalho interessantíssimo, feito em profundidade, a respeito do porto parnanguara, no contexto do século XIX e início do século XX, podendo ser entendido, como disse a autora, numa experiência da aplicação da teoria econômica dos ciclos, na história do Paraná. O livro é ilustrado com fac-símiles, e a proposta da historiadora não se resume a levantamentos estatísticos, que revelam as dificuldades enfrentadas pela atividade portuária em face do comércio marítimo ocidental, disputando o mercado do Rio da Prata e do Chile com outros portos (argentinos, uruguaios); o livro ainda traz dados que permitem levantar o perfil administrativo, governamental, em relação à produção e comércio de produtos para exportação, na descrição de personagens e seus atos.
Enfim, uma bela obra, que deveria constar na biblioteca de todas as escolas do nosso Estado. Porém, já nesse aspecto tive a primeira decepção: a tiragem, pelo menos dessa edição, foi de apenas 500 exemplares. Seguramente, mal cobriria a rede de ensino da Região Metropolitana de Curitiba! É uma pena que, em tempos de vacas magras, os primeiros cortes de recursos são feitos sempre na área cultural. Infelizmente, isso é um atavismo político endêmico no País, que contamina até governadores com formação artística. Força das circunstâncias ignorantes de que é a cultura que fortalece a alma do povo, tornando-o altivo, consciente de si mesmo, construtor do seu presente e planejador do seu futuro; nenhuma nação poderá superar crises, reerguendo-se de seus efeitos, sem uma boa dose de integração entre seus membros, sem o fortalecimento do espírito de corpo, que torna as pessoas mais solidárias, justas e abnegadas na luta por seus quereres. Veio daí a minha segunda decepção.
Sendo esse livro uma edição promovida pela Secretaria de Estado da Cultura, portanto realizada com a participação de dinheiro público, procurei nas páginas da obra a referência do Estado do Paraná. Não encontrei. Só havia, em página interna e na última capa, a logomarca do governo (a bandeira paranaense estilizada, com a palavra Paraná acentuada pela folhinha ecológica). Nada dos nossos símbolos paranaenses, oficiais, previstos na Lei Complementar nº 52/90. Nem a Bandeira, nem o Brasão das Armas.
Ninguém nega que a autoria da iniciativa, sendo governamental, portanto sob a égide dos políticos que estiverem na gerência do poder, da hora, mereça ser mencionada. Tudo bem que usem suas logomarcas, marcas, ícones, desde que respeitados os limites constitucionais impostos à publicidade oficial, que não se prestem à promoção pessoal do governante.
Penso que o poder público deveria fazer um serviço completo de pedagogia da cultura, e tratar de valorizar os símbolos permanentes do nosso Estado, que nos identificam conterrâneos do Paraná, que nos indicam valores comuns a todos, no passado, o compartilhar das experiências, no presente, e a expectativa de futuro. Nossa Bandeira estadual, o retângulo de sinopla, cortado pela banda oblíqua de argenta, que carrega a esfera de blau ostentando as estrelas do Cruzeiro do Sul; nosso Brasão das Armas, o escudo português ilustrado pelo campo de sinopla e a figura argêntea do semeador trabalhando, tendo no horizonte o céu de blau, um sol nascente e três montes de argenta; esses símbolos dizem respeito a nós, paranaenses, ao nosso Estado do Paraná, enquanto ente histórico, social, político, cultural; entidade permanente, que sobrevive à rotatividade dos partidos políticos que se revezam no poder.
A prevalência dessas logomarcas é tanta que daqui a pouco, para lembrarmos de como era mesmo a nossa bandeira, teremos de procurar ou nos mastros de alguns prédios públicos ou na farda da Polícia Militar.
Não sei se é muito difícil de se alcançar o signo, o significado e a significação dessas observações. Mas bem que poderia aparecer pelo menos um deputado estadual, mandatário da defesa dos interesses do povo do Paraná, que tivesse a dignidade de apresentar um projeto de lei propondo a obrigatoriedade de todos os documentos, papéis, folhetos, folders, banners, revistas, editais, veículos, repartições públicas etc., estampassem, deixando bem à vista, os Símbolos do Estado.
Os filhos do Paraná ficariam eternamente gratos.





