Truculento como um beque do Grêmio de Futebol Portoalegrense, o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, é uma espécie de ‘‘Serjão da esquerda’’. As polêmicas que costuma gerar se assemelham muito às que passam sob a esteira do trator de FHC: aparentemente extemporâneas, quase sempre emergem do nada, como tudo o que é irresponsável, e sempre terminam atingindo alguém ou atrapalhando algo. Como o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, parece vestir sempre a carapuça daquele tipo que sempre dá bom dia a cavalo, por falar demais.
Sua última pérola foi a entrevista em que concitou os pobres do Brasil a se postarem à frente dos supermercados frequentados pelos ricos e os sem-teto das cidades a ocuparem (eles nunca usam o verbo exato, que é invadir) terrenos baldios e prédios públicos abandonados ou ainda não usados. Depois do peru na cadeira do Kandir e dos três mártires oferecidos pela truculenta PM de São Paulo na desocupação do conjunto do CFHU na Fazenda da Juta, era a gota de nitroglicerina que faltava para fazer explodir de vez a autoridade do governo federal.
A primeira reação ao palpite infeliz do trator sem terra para arar partiu da sala de briefings do Palácio do Palanto. O presidente da República mandou seu porta-voz dizer que não aceita esse tipo de afronta e o ministro da Justiça de plantão garantiu que o processaria por isso. Ninguém ligou muito para a bravata, até porque fica difícil acreditar em alguma providência mais enérgica produzida pelo discurso melífluo e monocórdio do embaixador Sérgio Amaral. Com aquele estilo tatibitate, o porta-voz não daria sequer para animar baile de debutante, quem diria para assustar o líder de um movimento que invade propriedades privadas e prédios públicos como se tomasse chimarrão no pátio da estância.
Para que a reação do governo ganhasse algum crédito foi preciso que o próprio chefe geral viesse a público dar um murro na mesa em plena festa populista da posse de seu novo ministro da Justiça, Íris Rezende, aquele mesmo que, há pouco tempo, comandava um magote de senadores do PMDB contra a reeleição de FHC. ‘‘Basta de baderna’’, esbravejou o presidente. Fê-lo de forma meio desajeitada, pois esse tipo de pronunciamento que denuncia a coloração dos órgãos genitais é mais do feitio do outro Fernando, o Collor, vulgo primeiro, do que do seu. De qualquer maneira, foi o suficiente para fazer o falastrão do MST ‘‘arrecuar os arfes’’ e se dizer mal interpretado.
Estava mesmo na hora de um discurso como o de Fernando Henrique na quinta-feira da semana passada. Mas é bom que ele e seus assessores diretos, cada dia mais áulicos e, portanto, menos capacitados a assessorar, fiquem sabendo que as maluquices de Stédile só são levadas a sério por motivos que dizem respeito a seu governo e não à oposição, que ele acusou, com correção, de querer desestabilizar politicamente seu governo. Aliás, en passant, qual é a oposição que não quer?
Em primeiro lugar, Serjão bate sempre antes de levar e, como diz o povo, que não anda mais tão de bem com o presidente, chumbo trocado não dói. Depois, Stédile foi ouvido por ter sido chamado a falar no 9º Fórum Nacional, patrocinado pelo BNDES, agente do governo para estimular o desenvolvimento do capitalismo, que o MST despreza e combate. Ou seja, o governo tucano lhe cedeu a tribuna. Já lhe dera, aliás, atestado de legitimidade, pois o próprio presidente recebeu, pessoalmente, Stédile e mais uma patota de manifestantes em Brasília, depois que um deles, José Rainha Jr., qualificou o ministro da Reforma Agrária, Raul Jungman, de ‘‘canalha’’. Nas vigílias em que é submetido à tentação populista, o presidente já deve ter ouvido a voz do povo, segundo a qual, quando se dá a mão, o outro pode se sentir no direito de exigir o braço.
É ótimo que o presidente tenha resolvido falar grosso, pois, como ele mesmo disse, a sociedade não aprova a ação dos desordeiros, por mais coitadinhos que estes sejam. Mas não basta isso. A ação de seu governo precisa ser coerente com esse novo discurso, que pode ser definido com a inversão do famoso slogan de Che Guevara: há que se ter terno, mas sem perder jamais a dureza. O limite? É a democracia. Ele mesmo não disse?

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