Duradoura febre por remédio
Duradoura
febre por
remédio
Dr. Rosinha
Periodicamente alguma febre toma conta do mercado. Essas febres, como todas, levam mau agouro. Seja a simples febre de um resfriado ou a febre de consumo por algum produto. Quando a causa da febre é pelo consumo de medicamentos, é a confirmação de um estado patológico grave da sociedade. Se essa epidemia de febre ataca países do terceiro mundo, agora chamados pelo Fundo Monetário Internacional de países emergentes prefiro subemergente significa que a população está exposta a mais uma epidemia e consequente risco à saúde, ou seja, a vida.
No início do ano passado a grande febre, que significava a salvação dos machos, era o Viagra. Passada a febre, que trouxe prazer para poucos e dores de cabeça e morte para alguns, o Viagra deixou de ser o produto da moda. Mais recentemente entrou o Xenical, que vem sendo apresentado como a salvação de todos os obesos, principalmente as mulheres. Segundo proprietários de farmácias, para a felicidade deles, a febre pelo consumo desse medicamento deve ser maior que do Viagra, uma vez que vem atender a clientela feminina. Ambos os produtos só podem ser vendidos com receita médica e, só para ricos cerca de 65 milhões de pessoas não conseguem comprar remédios, sequer, os essenciais.
Sempre ao comprar esses produtos, o cidadão não leva em consideração os efeitos colaterais e outras graves consequências. A iatrogenia doença causada pelo excesso de medicamentos é responsável por grande parte dos internamentos no mundo todo, mas principalmente nos países que, como o Brasil, não têm uma política de controle de medicamentos. Pesquisas indicam que o medicamento está entre as seis causas mais frequentes de intoxicação. E as crianças são as principais vítimas dessa febre, aliás, de longa duração, de consumo de medicamentos.
No Brasil não se controlam os preços, a qualidade, a quantidade, a propaganda e a publicidade. O mercado é livre, tudo se empurra, nada se controla. Segundo o Conselho Federal de Farmácia (1997) há em todo o País 55.756 estabelecimentos de remédios (24.571 farmácias comerciais e 26.239 drogarias e outros). A proporção de farmácia/drogaria é de uma para 3 mil habitantes (nos centros urbanos, há um estabelecimento para cada 2 mil habitantes), ou seja, 2,7 a 4 vezes mais do que recomendado pela OMS. Esse excesso de estabelecimentos mostra o quanto é lucrativo esse comércio tanto que agora querem ampliá-lo, passando a vender remédios em supermercados. Isso agravará a febre por medicamentos.
Na Lei de Gérson outra febre, levar vantagem em tudo a empurroterapia é gol certo em cima do cidadão desinformado. Os donos dos estabelecimentos que vendem medicamentos obrigam os balconistas a venderem sempre mais: amostra grátis; produtos vencidos; em quantidade superior à indicada na receita médica, mesmo que não seja para aquele tipo de doença; e até medicamentos desnecessários. Tudo para aumentar o lucro e o balconista o faz para complementar o baixo salário. Essa febre leva pessoas saudáveis (sem sintomas), na ordem de 25%, a usarem medicamentos. Segundo Elisaldo Carlini (1993), 70% dos remédios comercializados no Brasil eram empurrados por balconistas e 50% dos nossos medicamentos não serviam para nada. Tomá-los ou não seria a mesma coisa.
Na nossa sociedade, os produtos são mercadorias e é com essa concepção que laboratórios, governantes e comerciantes tratam a questão dos medicamentos. Remédios não podem ser considerados mercadorias, até porque o cidadão não tem a alternativa da negativa diante da necessidade do remédio quando está doente.
Em defesa da população e da saúde pública precisa-se com urgência coisa que, infelizmente, não dá para esperar do atual governo de uma política nacional de medicamentos. Tal política deve contemplar, entre outras, o estímulo à pesquisa e à indústria estatal e nacional; combater a oligopolização da produção; elaborar uma lista de medicamentos essenciais e disponibilizá-los à população; colocar em prática uma política de educação dos profissionais de saúde e da população em geral para combater a já duradoura febre de consumo de remédios.
- DR. ROSINHA, médico pediatra e sanitarista, é deputado federal pelo PT-PR





