O ministro da Defesa, Nelson Jobim, toca num ponto não antes focalizado com ênfase, que é o do duopólio da aviação civil, hoje comandado pelas empresas TAM e Gol, detentoras de mais de 90% do mercado. E diz que é preciso colocar um freio nas tarifas abusivas. Esse abuso realmente ocorre e manifestou-se também agora, com a decisão de aumentar o preço das passagens por conta da mudança de rotas aéreas após o acidente com o avião da TAM. Os ministros anteriores não se preocuparam com essa questão, que é a da liberdade que as companhias têm de impor preços segundo o próprio arbítrio.
O novo titular da Defesa promete que primeiro resolverá os problemas de curto prazo, relacionados com a segurança de vôo e dos aeroportos e com a malha aérea, mas deixou evidente que intervirá também na política das tarifas. Parece que Jobim alça vôo com todo o empuxo, e havendo recebido carta branca do presidente Lula, tem sido enérgico em seus pronunciamentos e em suas participações nas reuniões afins, e demonstra disposição para impor uma nova ordem no sistema aeronáutico civil. Ele encara três problemas ao mesmo tempo: a precariedade do aeroporto de Congonhas, o deficiente sistema de controle aéreo e o abusivo custo da passagem área. E acena com a retomada da participação das empresas regionais em novas rotas, como fator de concorrência.
Apoio governamental e da opinião pública é o que não lhe falta para enfrentar essas encalacrações imperantes na aviação comercial. Espera-se que o Ministério da Defesa - ao qual estão subordinados todos os órgãos de controle do sistema aeronáutico - passe também a impor mais rigor nas exigências de manutenção das aeronaves, porque se existem falhas humanas e logísticas, constata-se igualmente negligências na conservação dos aviões, muitos de segunda mão e já velhos. Foi preciso ocorrer a infelicidade de dois trágicos acidentes aéreos recentes (com exatos 353 mortos) para que se evidenciasse tanta deficiência no que estava (e ainda está) ocorrendo no transporte aéreo brasileiro.
O próprio presidente Lula - que nunca sabe de nada do que acontece de ruim debaixo de seus olhos - acaba de declarar que não sabia que o caos aéreo era tão grave, e só agora percebeu que o Ministério da Defesa só existia ''no papel''. E, citando-se en passant, não é só este setor de seu governo que existe só no papel, mas muitos outros. A providência primeira do novo ministro foi reestruturar a malha aérea para desafogar Congonhas, evitando que esse aeroporto faça conexões mas opere apenas em vôos de ponto a ponto. E anunciou obras na pista principal de Guarulhos e deslocamento de aviões para Viracopos, em Campinas. Da crise à ação, percebe-se que a reforma de sistemas ocorre às vezes apenas pela vontade pessoal de alguém que, no comando, comece a agir. Bom se isso acontecesse em todos os escalões governamentais e no própro gabinete presidencial.

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