DUAS VIDAS, UMA HISTÓRIA O AMOR NA MELHOR IDADE
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de abril de 2003
Luka Morais<br> Reportagem Local 
Um amor guardado durante 66 anos para ser vivido agora, quando ambos, Gessie e Eddye completam 81 anos. A história de amor do casal que viveu quase sete décadas sem se ver começou em 1934 na porta de uma igreja de Erechim, Rio Grande do Sul, quando a adolescente sentiu as pernas tremerem e o coração quase saltar pela boca ao ver o seu primeiro amor. O romance durou três anos e terminou quando a família de Gessie se mudou para São Paulo. A despedida não passou de um tímido aceno feito pela jovem de 15 anos do trem que deixava a cidade em direção ao interior paulista.
Nos 66 anos que se seguiram cada um viveu sua história. A poeta Gessie Maria Guioto se casou, teve duas filhas e após 25 anos decidiu colocar um fim no relacionamento definido por ela como muito difícil. ''Não fui feliz e sempre pensava no Eddye'', revela a poeta.
O comerciante Eddye Valentim Matteve, que mora em Erechim, Rio Grande do Sul, também se casou e teve três filhos. No ano passado, ao saber por meio de uma amiga que a mulher de Eddye havia morrido, Gessie decidiu procurá-lo. ''O tempo todo em que ele esteve casado eu respeitei isso e só fui ligar para ele depois da morte da mulher'', ela faz questão de esclarecer.
Gessie revela detalhes que só os apaixonados costumam guardar: a ligação telefônica foi feita às 23h45 do dia 24 de julho. A voz fria de Eddye parecia refletir a temperatura. Os termômetros em Cambé registravam 2 graus abaixo de zero. ''Ele me disse que amor só acontece uma vez. Mas eu insisti com ele que não é assim não!'', relata Gessie.
Moradora em Cambé (13 km a oeste de Londrina), numa via que cruza com a Rua Esperança, a poeta conta que não precisaram muitas ligações, todas com um fundo musical romântico, para conseguir reaquecer o coração do amado. Falante e bem humorada, a poeta diz que depois de reencontrar seu amor conversava com ele quase todos os finais de semana. Mas isso acabou causando um rombo no orçamento doméstico. Problema solucionado pouco tempo depois. ''Ele está bem caidinho por mim e me liga quase todas as semanas'', ela comenta.
No ano passado, estimulada por amigos que se empolgavam com a experiência do casal, a poeta decidiu tornar pública a história de amor. Procurou a produção de um programa de televisão e no dia 16 de fevereiro Gessie e Eddye voltavam a se encontrar. ''Vivemos dias inesquecíveis em Petrópolis (RJ)'', lembra Gessie, que ganhou uma lingerie da produção e revela: ''Ele está tão carinhoso. Tão querido que eu nem sinto que tenho 81 anos e que se passaram 66 anos''.
Depois da semana que pareceu um conto de fadas, Gessie voltou a Cambé e Eddye, a Erechim. Com uma diferença: ''Sabe, os filhos dele tinham ciúme de mim. Não me aceitavam, mas depois de me conhecerem pela televisão, passaram a me aceitar.''
O casal continua a se falar por telefone. Ela, depois do reencontro, com inspiração redobrada, produziu poesias em série. Nos planos, lançar um CD com os poemas. Ele, segundo relato dos filhos, ''ressuscitou''. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, o casal não tem intenção de morar juntos. ''Vamos continuar cada um na sua casa. Vamos ser eternos namorados'', diz Gessie, que aguarda os filhos agendarem uma data para que o casal volte a se encontrar.
Serviço: A história de amor de Gessie e Eddye será exibida no telão do Centro de Eventos de Cambé no próximo dia 29, às 20 horas. O ingresso será um quilo de alimento não perecível.


