Guarapuava Na região do município de Pinhão, a cerca de 50 quilômetros ao sul de Guarapuava, uma disputa por um bom pedaço de terra já dura 142 anos e envolve duas etnias: os negros descendentes de escravos e os suábios, alemães que imigraram para o Estado nos anos 50 e fundaram a próspera Cooperativa Agrária Mista Entre Rios Ltda. A terra em questão, chamada de Invernada Paiol de Telha, é reivindicada pela comunidade negra e, no momento, está de posse de agricultores da comunidade alemã, coberta por soja e com uma das melhores produtividades do País.
Até o tamanho da propriedade é questionado nas ações judiciais que a envolvem. Para os negros, são mais de 3 mil alqueires, enquanto a medição feita pela Cooperativa Agrária aponta para 1,2 mil alqueires. Uma diferença considerável de mais de 38 milhões de metros quadrados, o equivalente a quase 5 mil campos de futebol.
A história remonta a 1860, ou seja, 28 anos antes de ser assinada a Lei Áurea. A proprietária Balbina Francisca de Siqueira, viúva e sem filhos, passou a posse das terras a um grupo fiel de escravos. ''Heleodoro e sua mulher Feliciana, Manoel, José Velho, José dos Santos, Izidoro, Eduardo, Dinha, Joaquim, Libânia e Rita'', segundo o testamento. Além das terras, ela deixava os escravos libertos depois que morresse e a única exigência era que eles a servissem em vida.
Além deles, existiam ainda outros dois escravos, José Marcos, afilhado dela, e Generosa, que também ficariam libertos, mas com a condição de servirem duas órfãs que Balbina criava, Maria Antônia dos Santos e Porfíria Pedra, por 15 anos.
No testamento, ditado e assinado em 2 de julho de 1860, na antiga Villa de Guarapuava e homologado pelo juiz Manoel Marcondes de Sá, em 24 de janeiro de 1866, dona Balbina estipulava o seguinte: ''A Invernada denominada Paiol de Telha, que possuo na Fazenda Capão Grande, e que principia desde o Pontão, até o Rio da Reserva, com as terras de cultura nela existentes, ficam pertencendo por meu falecimento a todos os escravos acima mencionados, e às suas famílias, para nela morarem, sem nunca poderem dispor, disto, como fica, como patrimônio dos mesmos''.
A vontade de Balbina se fez, mas não de forma tranquila, pois houve disputas entre os herdeiros. A posse da terra, conforme relato dos descendentes dos escravos, nunca foi integral, como seria o desejo da proprietária. Por ações violentas de alguns herdeiros contrariados, a terra dos negros teria sido reduzida dos 3 mil alqueires iniciais para os 1,2 mil disputados hoje. Mas tudo viria a se complicar ainda mais quase um século depois de assinado o testamento.


CRONOLOGIA

1860 A proprietária Balbina Francisca de Siqueira faz testamento deixando para os escravos as terras e a produção da Invernada Chapéu de Palha. Depois da morte de Balbina, há relatos de disputa entre os herdeiros.
1952 Cerca de 500 famílias de alemães suábios chegam ao Brasil e à região de Entre Rios para colonização da área. É criada a atual Cooperativa Agrária Mista Entre Rios Ltda.
1967 Vinte e oito famílias remanescentes e descendentes dos escravos de Balbina repassam o direito de posse para João Trinco Ribeiro. Há relatos de violência contra os herdeiros.
1974 Em 1º de outubro de 1974, uma escritura pública passa ao delegado Oscar Pacheco dos Santos os direitos de posse das 28 famílias descendentes dos escravos herdeiros. Os relatos de violência continuam até esta data.
1974 Em 17 de outubro do mesmo ano, 16 dias depois de ter adquirido as posses, o delegado Oscar Pacheco vende para a Cooperativa Agrária de Entre Rios as terras, os direitos hereditários e os direitos de posse adquiridos aos descendentes. Ainda existem relatos de violência, feitos pela comunidade.
1975 Os associados da cooperativa colhem a primeira safra na Paiol de Telha, ainda tendo descendentes dos escravos como vizinhos.
1981 A cooperativa conclui a compra das outras posses e dá entrada no pedido de usucapião.
1991 O processo de usucapião é julgado definitivamente e a cooperativa é declarada proprietária da Invernada Paiol de Telha.
1994 Apoiados pela CPT, alguns descendentes dos escravos herdeiros entraram com representação na Procuradoria Geral da República no Paraná que não aceitou o pedido alegando que as vias legais estavam esgotadas.
1997 Algumas famílias decidiram mostrar seu drama acampando na rodovia ao longo das terras de seus antepassados. Ali eles ficaram por 16 meses. Há novos relatos de ameaças e violências.
1999 Sessenta e duas famílias dos descendentes dos escravos foram assentadas pelo Incra em uma nova área, de pouco mais de 1 mil hectare, na região.
2002 Grupo de apoio à comunidade da Invernada Paiol de Telha pede novamente à Procuradoria Geral da República, desta vez em Brasília, abertura de processo para devolução da terra aos descendentes dos escravos herdeiros. A procuradoria ainda analisa o pedido.

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