Florestópolis - ''Acho que minha vida podia ter sido diferente. Talvez eu não estivesse nem viva, podia ter morrido''. Edileusa Martins de Oliveira, hoje com 19 anos, nasceu com baixo peso, ''fraquinha'' como relembra a mãe Maria Aparecida da Silva Oliveira, e não conseguia engordar. Foi salva da desnutrição pela ação intensiva das freiras da paróquia da cidade. A jovem foi uma das primeiras crianças atendidas pela Pastoral da Criança, em Florestópolis, (73 km ao norte de Londrina), e representa a importância do programa, que no último mês completou 20 anos de atividade.
E ela não foi a única. Balança, multimistura, mas, principalmente informação foram as ''armas'' da Pastoral da Criança para reduzir a mortalidade infantil em Florestópolis. Em 1983, quando o programa nasceu, a cidade de 15 mil habitantes registrava 127 mortes por mil crianças nascidas vivas.
Com a balança, as voluntárias controlavam mensalmente o peso das crianças e se o seu desenvolvimento estava acontecendo de acordo com a idade. Também orientavam as mães sobre o aproveitamento de alimentos, importância do exame pré-natal, da vacinação e do soro caseiro, incentivavam o aleitamento materno e ensinavam noções de higiene.
Da necessidade de uma alimentação enriquecida nasceu a multimistura, feita de sementes de frutas e legumes, folha de mandioca e casca de ovo. Hoje, ingredientes regionais também são aproveitados na multimistura. O trabalho deu certo e se estendeu para todo o país. Com as ações da Pastoral, o índice de mortalidade infantil em Florestópolis caiu para 20 mortes por mil, em 1997.
Para a médica Zilda Arns, uma das idealizadoras do programa, assim como o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Geraldo Majella Agnelo, a Pastoral é uma experiência ''extraordinariamente bem sucedida''. ''Promovemos milhares de mulheres a agentes de transformação, trazendo benefícios para elas e para a comunidade, e cada líder capacitada multiplica o saber por 12 famílias em média'', comemora.
Hoje, com atuação em 3.549 municípios brasileiros, mais de 5 mil crianças são salvas da morte por ano e mais de 150 mil se recuperam da desnutrição. Em todo o país são 200 mil voluntários, 155 mil líderes comunitários, que acompanham mais de 1,6 milhão de crianças e mais de 1,2 milhão de famílias. A Pastoral ainda serve de modelo para experiências semelhantes em 14 países da América Latina, África e Ásia. O programa foi indicado há dois anos pelo governo brasileiro ao Prêmio Nobel da Paz. ''O meu Nobel é ver líderes tão felizes cuidando das crianças e podendo salvar vidas com ações tão básicas. Me sinto plenamente realizada'', afirma Zilda Arns.
A mãe de Edileusa, que trabalhava na lavoura quando a menina nasceu e que até hoje sobrevive de trabalhos ocasionais durante as safras de cana, de ''bicos'' e de seguro-desemprego, não sabe do alcance da Pastoral, mas reconhece sua importância. ''Eu não tinha preparo para cuidar dela (da filha), não tinha dinheiro para comprar remédio e tinha que trabalhar. Se não fosse a Pastoral, ela não estaria viva'', afirma.

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