Duas cidades - Paulo Briguet
Paulo Briguet
Nasci em São Paulo. Passei boa parte da infância num apartamento da Alameda Barão de Limeira, vizinho do jornal dos Frias. Depois, universitário imberbe, morei no Bexiga, vizinho das cantinas. Gosto de lá, mas acho que hoje é uma cidade violenta e absurda.
Acontece que ser paulistano é como ser comunista ou seminarista: você pode abandonar a cidade, o partido ou a igreja, mas para sempre vai falar de revoluções, sacramentos e pizzas. É o mistério da fé. Comigo não seria diferente.
Mesmo morando há mais de uma década aqui em Londrina, cidade que adoro e escolhi para viver, sonho sempre com São Paulo. De uns tempos para cá, uns sonhos estranhos, talvez pesadelos, que misturam as duas cidades.
O último sonho foi tão incongruente que me levou a escrever.
Andando pela calçada, estou na Praça da República. Atravesso a rua, é a Souza Naves, pô! Tomo um café expresso num boteco da Avenida São João; quando vou pagar a conta me vejo na lanchonete do Marquinho, aqui perto da redação. Por falar em redação, abro o jornal na página 2 e leio a coluna do Mazza na Folha de Londrina/Folha do Paraná; pisco os olhos (é, em sonho a gente também pisca) e já estou lendo o Clóvis Rossi na página 2 da Folha... de S. Paulo! Parece até que os dois bambas do jornalismo falam do mesmo assunto. Estarei enlouquecendo? Deve ser trabalho demais.
De repente, me vejo trabalhando como repórter. Bloquinho na mão, entrevisto um vereador da Câmara paulistana. Rabisco algumas anotações, e quando passo à segunda pergunta meu Deus! é um vereador de Londrina que foge do assunto. Fico desconcertado, mas não tenho tempo de saber o que aconteceu: houve manobra governista e a sessão da Câmara (de que cidade?) foi encerrada. O plenário está vazio. Do lado de fora da Câmara, manifestantes gritam palavras de ordem e parodiam marchinhas de Carnaval.
Resolvo dar uma passada no Fórum. Um grupo de promotores está mergulhado em toneladas de papéis e toneladas de irregularidades. Bastante envergonhado pela minha ignorância, pergunto a um deles:
Qual o nome desta cidade mesmo?
Ele apenas sorri e continua trabalhando com a papelada. De repente, chega mais uma testemunha. Ou será algum indiciado? Não sei, não deu tempo para ver. Saio do Fórum.
Fico alarmado: será que no mundo dos sonhos a Lei da Mordaça já está em vigor? (Talvez este sonho não seja meu, mas de algum político.)
Caminhando sem norte, encontro uma figura querida, que não via desde a infância.
Irmã Laura, a senhora por aqui!
Meu filho, quanto tempo!
Abraço-a, comovido. Ela é uma das figuras responsáveis por minha alfabetização em colégio de freiras (o leitor decide se a alfabetização valeu a pena). Sob a severa orientação dela, li o catecismo. Aprendi muito com a sua abnegação e bondade. Se eu acreditasse em canonizações, a Irmã Laura seria uma das primeiras pessoas da minha lista. Mas, no sonho, ela está apreensiva.
O que aconteceu, Irmã?
Ela nada diz. Fecha os olhos, abaixa a cabeça, cobre o rosto com a mão direita e aponta para frente com a mão esquerda. Na esquina, um punhado de repórteres cerca uma senhora que leva em mãos a bandeira do Brasil. A mulher vai empilhando acusações terríveis, que não escuto bem. Os jornalistas tomam nota de cada palavra. Olho para a Irmã Laura e ela está abalada, quase se deixando levar pela ira:
Que vergonha em nossa cidade nos últimos anos, Paulo. Que vergonha. Não é isso que o catecismo ensina, meu filho. É a Lei: não furtar, não furtar...
Irmã Laura, para minha tristeza, desaparece. Agora estou perambulando no bosque do centro de Londrina. Entre a vegetação, há galinhas, garnisés, galos, frangos de toda espécie. As aves bicam restos de marmitex no chão vermelho. Paro. Observo a dança dos galináceos e o desenho do vento nas árvores.
Volto a caminhar. Uma mulher de óculos escuros passa ao meu lado, chorando. Qual será o seu problema? O que guardará de melancólico na consciência? Sei que minhas perguntas não farão a mulher dizer nada; ela vai embora.
O alarme do rádio-relógio dispara. Acordo. Ouço as primeiras notícias da manhã. Percebo que, lá fora, o dia está nascendo na cidade. Em alguma cidade.
PAULO BRIGUET é redator da Folha.





