Relatório do escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime no Brasil (UNODC) e Cone Sul, apontam que o crime organizado funciona como uma holding, na qual a droga é o item mais lucrativo de um empreendimento que fatura US$ 1 trilhão por ano. O mesmo relatório afirma que no período de 1987/97, alunos do ensino médio e fundamental passaram a consumir seis vezes ou mais ansiolíticos (tranquilizantes), anfetaminas, maconha e cocaína. Sendo que o consumo de cocaína aumentou em mais de 700%.
O Brasil está no percurso entre os produtores e os países europeus de destinação final do produto. Mas já não é só rota. Nos últimos cinco anos, o consumo aumentou. Dados do Cebride (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) mostram que, de 87 a 97, os estudantes de ensino médio e fundamental passaram a consumir seis vezes ou mais: anfetaminas (150% a mais), maconha (325%) e cocaína (700%).
De acordo com o relatório se criou no Brasil um mercado interessante para os traficantes, porque eles não precisam pagar com dinheiro os serviços que prestam aos seus colegas na Europa e EUA. Num carregamento de 100kg de cocaína que entra no Brasil, os brasileiros se encarregam de despachar 80kg para fora e ficam com 20kg para distribuir aqui, afirma o UNODC. O relatório afirma ainda que, 1 Kg de cocaína pode ser adquirido na fronteira entre Brasil e Bolívia por US$ 1.500, a um nível de pureza de 70%. Posteriormente, esse quilo é vendido nas favelas entre US$ 5 e US$ 7 mil, com o mesmo nível de pureza. O mesmo produto, com pureza entre 30% e 50% chegará aos clientes da classe média alta a US$ 20mil/Kg, US$ 20/grama.
O fator de multiplicação é de quase 30 vezes. A mesma cocaína que vem da Colômbia, da Bolívia, passa pelo Brasil e continua para Europa e EUA, será vendida em grandes quantidades por US$ 30 mil a US$ 50 mil/Kg, chegando ao consumidor final por algo entre US$ 100 mil e US$ 150 mil, finaliza o relatório.
Há décadas existem estudos que afirmam que as causas da criminalidade violenta, especialmente o tráfico de drogas é um dos maiores problemas das cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes, em função da ausência total do Estado e de seus agentes nas áreas de periferia e a completa falta de assistência médica, judiciária, sanitária, educacional, sem lazer e a viabilidade de convivência sadia, restando como única opção o tráfico. Ausente o Estado, instala-se e lei do mais forte e a criminalidade semi-organizada ou organizada assume o seu papel.
Se quisermos ter sucesso nas ações contra o crime organizado, temos que focalizar a atenção em como reduzir o mercado do traficante e através de trabalho preventivo, que tem relação custo-beneficio muito mais positiva do que ações repressivas. É imperativo que a Senad (Secretaria Nacional Antidrogas), o Judiciário, o Ministério da Saúde, da Educação, dos Esportes e o recém-criado Ministério das Cidades, realizem ações integradas para mudar esse triste quadro que está destruindo o futuro do Brasil que são os jovens.
VALDIR DE CÓRDOVA BICUDO é investigador da Polícia Civil em Curitiba

mockup