São Paulo - Pai mata filho viciado. Menos de um mês depois, morre de desgosto. Estudante de Direito degola a avó e mata a empregada a facadas. Estudante pede a namorado que mate seus pais. Desempregado assassina a mãe, idosa, com pancadas na cabeça e simula atropelamento. Todos os casos se deram em São Paulo, nos últimos meses. Violência entre parentes ligada ao uso de drogas sempre ocorreu, mas de tempos em tempos. Alarmante é a proximidade dos casos.
Na escola, por exemplo, Gustavo Macedo Pereira era o menino que dava mais trabalho. Passou por neurologistas para avaliar o motivo de tanto desassossego. O diagnóstico: hiperatividade. Por isso, mudou de escola várias vezes. Aos 11, 12 anos, com a angústia de saber quem era o pai, Gustavo começou a beber.
Vera, sua mãe, engravidou aos 26 anos do namorado, que exigiu o aborto. Ela quis o filho. Para tê-lo, suportou preconceitos e a resistência dos pais. Sempre foi a amiga do filho, mas não dava conta de resolver a questão que o atormentava: conhecer o pai. Ela pedia, mas ele se recusava até mesmo a ter notícias de Gustavo.
O menino foi criado com os avós maternos, Murilo de Macedo Pereira, um respeitado delegado de polícia, e a advogada Vera Kuhn de Macedo Pereira, que se apegara muito a ele depois de perder um filho, de 16 anos.
A mãe começou a perceber pequenos furtos em casa. Uma pessoa a alertou: ele poderia estar usando drogas. ''Imagine, deve ser peraltice de adolescente.'' Um dia, ele confessou que usava maconha, crack e cocaína. Foi internado quatro vezes para tratamento. Cortou pulsos, feriu o abdome, drogou-se intensamente. Buscava alívio para a dor da rejeição, segundo relato da mãe ao advogado Benedito Noel Pereira de Godoy Júnior, que ela contratou para defendê-lo depois que ele matou a avó e a empregada.
Gustavo tem uma história de vida complicada, mas a jovem Suzane Louise von Richthofen, de 19 anos, vivia numa família bem estruturada. Mesmo assim, na noite de 31 de outubro, depois de fumar maconha, esperou no carro enquanto o namorado e o irmão dele matavam seus pais.
''Essa sequência pode não estar no fim'', diz o psicoterapeuta do Hospital das Clínicas João Augusto Figueiró, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. ''Quando há um crime desse tipo cresce o risco de ocorrerem outros semelhantes'', afirma.
Para o psiquiatra André Malbergier, coordenador do Grupo de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) do Instituto de Psiquiatria do HC, há várias maneiras de perceber que a situação está quase insustentável. ''As pessoas não matam o pai ou a mãe de um dia para o outro. A violência já vem acontecendo há meses, anos. O viciado torna-se um torturador, um ditador e, os pais, reféns. '' Segundo o psiquiatra, a família deve intervir logo no início.
Viciado em álcool desde os 18 anos, no começo deste mês o desempregado Marcos Fonseca, de 38, matou a mãe, Elisa Frisiachi, de 72, no apartamento onde ela morava, em Moema, zona sul. Foi espancada até a morte. Não foi a primeira vez que Fonseca bateu na mãe. Uma vez, ameaçou atirá-la da janela. No hospital, ferida, Elisa disse ter sido atropelada.
Na avaliação do psicoterapeuta Figueiró, todos que usam drogas devem ter acompanhamento médico e psicológico. ''O limite entre a normalidade e a descompensação psiquiátrica é muito tênue.''

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