Droga é a demanda - parte I - Joel Samways
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segunda-feira, 08 de dezembro de 1997
Joel Samways 
No Brasil, as crises primeiro precisam atingir níveis de desespero, de pânico, de catástrofe, para depois serem tomadas devidas providências. Mentalidade antiga, afeita ao deixa estar para ver como é que fica, enraizada na sociedade de homens do povo e de homens públicos. Porque nem todos os problemas são problemas só do governo - há problemas de usos e costumes, da competência exclusiva, ou, no mínimo concorrente, da vida privada, que também sofrem o tal do deixa estar. Por exemplo, o Estatuto da Mulher Casada, que deu direito à mulher casada de trabalhar fora sem autorização do marido, é de 1962, e até hoje o machismo impede a eficácia plena dessa norma. Se a consorte (consorte?), bobear, apanha.
Quer dizer, há fatos que já foram detectados pelo poder público, já foram estudados, diagramados, debatidos e solucionados - pelo menos em termos de se criar uma lei que ponha ordem no cortiço. Então, de repente aquela fase que normalmente é a parte mais difícil - a criação de uma lei -, às vezes é superada mais facilmente, porém redutos fortes de resistência tudo fazem para não deixar a lei pregar. Falta, à maioria, espaço na mídia para reforçar o consenso que a minoria de gritões teima em dissimular.
Assim tem sido com as drogas. A mentalidade social e política já conseguiu atingir um patamar de consciência sobre o assunto, a ponto de legislá-lo, criminalizando o tráfico, o uso, plantação, o cultivo, a industrialização, a importação e exportação, o fornecimento, a prescrição etc., de substâncias entorpecentes que causam dependência física ou psíquica (Lei 368/70). Inclusive, posteriormente, o tráfico ainda recebeu um tratamento mais severo ao ser listado entre os chamados crimes hediondos (Lei 8.072/90), e antes disso a própria Constituição da República tinha-o considerado crime inafiançável. Apesar disso, de toda essa materialidade jurídica, volta e meia os meios de comunicação de massa enxovalham o País com opiniões de parlamentares e de artistas, defendendo a legalização de drogas. Aconteceu recentemente, no episódio da prisão em flagrante dos integrantes de uma banda de rock nacional, que saíram do palco para a cadeia, por contribuir de qualquer forma para incentivar ou difundir o uso indevido da maconha. A lei em vigor diz, claramente, que isso é crime. O delegado agiu corretamente, aplicando-a. Mas a comoção popular arranjada na mídia foi feita parece que no sentido de desmoralizá-lo.
Eis um fato em relação ao qual quem cala consente. Consente com o crescimento brutal do uso de drogas entre crianças, adolescentes e adultos, corroendo-lhes infância, juventude e maturidade, arremessando-os para a valeta da invalidez. Daí vêm os próceres da legalização das drogas com o discurso das sutilezas. Dizendo que o que eles querem é legalizar drogas leves, que a maconha é droga leve, que combate o stress e faz bem para a saúde. Falam devagar, devagar, tipo freio-de-mão puxado, e você pensa que eles são calmos de sabedoria.
O que é certo, real, é que as contradições construídas pela própria sociedade que se diz preocupada com a deterioração dos seus cidadãos, são também grandes responsáveis pela crise. Primeiro, o álcool - também é substância entorpecente que causa dependência física ou psíquica. Estão aí os índices alarmantes dos acidentes de trabalho, tendo como causa principal o alcoolismo. Depois, o tabagismo - os EUA já indexaram o cigarro como entorpecente na acepção médica e criminal do termo. Causa dependência, produz câncer, enfisema etc. No entanto, a indústria de bebidas aparece, diariamente, graças ao poder do seu dinheiro, na televisão, no rádio, nos jornais e revistas, patrocinando a mídia e competições esportivas, aliciando atletas a vestirem suas logomarcas. A indústria fumageira, igualmente, encanta com seus belíssimos curtas-metragens, celebrando a vida, a natureza e a felicidade.
Francamente, é preciso reagir com força moral, com força educacional, não apenas com força policial. Se os governos querem ajudar, que não gastem dinheiro público com publicidade suave, bonitinha, cheia de criatividade, e tratem de mostrar a vida como ela é. Que mostrem o depoimento dos pais que sofrem com a mutilação mental de seus filhos drogaditos, que mostrem o estado em que se encontram os dependentes durante suas crises de abstinência, as dificuldades do tratamento psiquiátrico, enfim, o cotidiano virado lixo, à custa de baratos.
Se não se pode vencer, de imediato, a oferta das drogas, deve-se trabalhar para evitar a demanda (Continuo na próxima semana).
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná.


