''Bicho carpinteiro''e ''pestinha'' são apenas alguns dos adjetivos usados para designar a criança que não para quieta, não presta atenção nas aulas, deixa o quarto revirado e mexe em tudo. Pelo menos uma dessas características toda criança tem, mas esses também podem ser sintomas de uma doença relativamente comum.
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é cada vez mais diagnosticado entre crianças e jovens. Uma das alternativas de tratamento é o medicamento metilfenidato, conhecido como ''droga da obediência'' ou ''droga do sossego''.
O tratamento divide a opinião de médicos e também dos pais. Alguns têm medo de dar aos filhos um remédio de tarja preta. Segundo o neuropediatra e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Aparecido Andrade, o receio é infundado, já que é um medicamento seguro, usado há mais de 50 anos.
Sobre a ideia de que atualmente se receita muito metilfenidato, ele afirma que 5% a 10% da população mundial são portadores de TDAH e que no Brasil menos de 1% é medicado. ''O Brasil está subdiagnosticado e subtratado. Até porque nós não temos amparo da situação pública para medicar as crianças carentes'', critica.
Há médicos que discordam da existência do TDAH. O transtorno existe mesmo ou são só infrações sociais?
É uma doença comportamental, de fundo orgânico e 70% das crianças com TDAH têm comorbidades associadas. São transtornos de conduta, aumento do risco de álcool, de drogas, de fumo, aumento do risco de paternidade e maternidade na adolescência. Podem ser crianças opositoras, agressivas, desafiadoras, crianças que têm tendências de maus tratos com animais. Elas também mentem, têm dificuldade de manter padrão de organização, a atenção e a concentração.
Identificar a doença é complicado?
É um complexo de sintomas. Todos nós em dado momento podemos ser irrequietos ou mentir. Mas isso não é a nossa rotina. Não se pode ser TDAH em casa e não ser na escola. E também não se pode ser ''normal'' em um dia e no outro acordar TDAH. Ela tem que ter uma evolução, menos de seis meses não dá para classificar como TDAH. Esses sinais e sintomas aparecem em geral mais fortes após os 5 anos de idade. E a tendência é eles aparecerem cada vez com mais saliência à medida que vai chegando a adolescência. Depois, na vida adulta, ficam alguns sintomas e desaparecem outros.
Aqui temos questionários, protocolos e então se fecha o diagnóstico. Embora sejam muitos sintomas, a criança com TDAH é nitidamente diferente das outras, embora o padrão de intelectualidade seja absolutamente normal. Ela só não aprende como a média porque não para para aprender. Há também o hiperfoco. Se ela gosta de música, é boa naquilo, mas nas coisas do dia a dia, não é.
Existe uma causa de TDAH?
Já se sabe que é herdado geneticamente, a chance é de 70%. Quem herda o gene alterado não obrigatoriamente vai ter sintomas. O transtorno atinge genes ligados à fabricação de dopamina no cérebro, principalmente. A dopamina é um transmissor químico que age na área da emoção, da coordenação e da memorização.
Existe exames que comprovem a doença?
Não existe marcador biológico, por isso a dificuldade do diagnóstico. Não existe um exame laboratorial ou de imagem que comprove, mas é muito provável que futuramente exista.
Ultimamente há um número elevado de crianças sendo diagnosticadas com TDAH. A doença era desconhecida até pouco tempo ou muitos diagnósticos errados estão sendo feitos?
O TDAH é conhecido desde 1850. O metilfenidato existe desde 1955. No Brasil ele foi realmente divulgado a partir de 1980. A incidência (da doença) no mundo varia de 5% a 10%. No Brasil nem 1% é tratado. O que se vende aqui de metilfenidato, não se vende em um Estado americano. O Brasil está subdiagnosticado e subtratado. Até porque nós não temos amparo da situação pública para medicar as crianças carentes. E TDAH não tem padrão social nem racial.
Crianças e adolescentes devem obrigatoriamente ser medicados?
Se houver diagnóstico definido e prejuízo comportamental, escolar ou emocional, sim.
Muitos pais têm receio de dar o medicamento aos filhos por ser de tarja preta. O receio tem fundamento?
Não. A tarja preta vem em função de ser um estimulante. A Anvisa determina que em toda medicação estimulante deve se colocada a tarja preta como advertência, porque alguns causam dependência. O metilfenidato não causa dependência química nem psicológica. Ele simplesmente faz com aumente a dopamina do paciente impedindo a reabsorção do neurotransmissor que a própria pessoa produz.
Quais os efeitos colaterais mais comuns?
Perda de apetite, durante o período que estiver sob efeito do medicamento. Como a criança usa apenas durante o dia, à noite vai comer bem e com um café da manhã adequado não vai haver oscilação de peso. Outro efeito é dor de cabeça e dor abdominal no início do tratamento. São transitórios e não impedem o uso da medicação. Não existe relação com estatura, peso, desenvolvimento nem com efeitos colaterais orgânicos. Se fazia relação antigamente com cálculo renal e morte súbita. No último congresso em novembro passado, nos Estados Unidos, isso foi totalmente desvinculado.
Qual a melhora dos pacientes que usam a medicação?
Estatísticamente, em termos de distúrbio escolar, 80% a 90% de melhora. Em termos de comportamento, de 60% a 80%. O risco de uso de droga e de acidente automobilístico é seis vezes menor.
Existe o chamado ''efeito zumbi'', quando a pessoa se sente fora de si?
Não. O que acontece é que se eu sou agitado, inquieto, quando tomo, me acalmo. Isso pode dar a sensação para os pais de que a criança ficou ''robotizada''. Mas não quer dizer que quem está sob efeito do metilfenidato não vai ter seus momentos de irritabilidade ou agressividade, como qualquer pessoa. Ele não perde o discernimento nem a lucidez.
O portador de TDAH pode usar o medicamento por tempo indeterminado?
Existe uma discussão muito ampla em cima disso. Alguns autores acreditam que após os 18, 20 anos, o cérebro já atingiu um grau de maturidade e que não há necessidade da medicação sempre. Outros já acreditam que há a necessidade de tomar continuamente. E o terceiro time acha que depois dos 18 anos esse grau de maturidade faz com que não se precise de medicação. Na prática vemos que há pessoas que não têm mais necessidade depois de um tempo, mas há aqueles que vão precisar a vida toda.

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