Droga (coisa ruim) pesada
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de agosto de 1997
José Elias Aiex Neto 
Sou psiquiatra e me considero um técnico em comportamento. Como tal, tenho procurado desenvolver um trabalho preventivo junto à minha comunidade. Prevenção em saúde mental é quase utopia, já que prevenir distúrbios do comportamento é mais ou menos como ensinar a viver, e não tenho nenhuma pretensão de me achar responsável por isso. A prevenção em pauta é baseada no oferecimento, a jovens estudantes, de informações importantes e respeito do psiquismo, de sofrimento psíquico e da busca de mecanismos de alívio para tal sofrimento. Tendo conversado com centenas de jovens em dezenas de escolas, tenho reassegurado algumas verdades:
1 - A sociedade interfere profundamente sobre o psiquismo;
2 - O modelo de sociedade atual (individualista, competitiva e consumista) tem gerado sofrimento psíquico, a saber: em toda competição há stress, quem perde (no nosso caso, os 59% dos excluídos) fica triste. Temos tido um aumento de stressados e deprimidos no país com a maior concentração de renda do mundo;
3 - O modelo de saúde adotado (tecnicista e mercantilista) priva médicos e pacientes de exercerem a arte da solidariedade, que muitas vezes alivia mais do que qualquer medicamento ou recompensa financeira;
4 - Alguém em sofrimento psíquico, usando substâncias psicoativas (drogas) pode encontrar alívio nelas e tornar-se dependente. É óbvio que sedativos aliviam o stress e estimulantes mascaram sentimentos depressivos.
5 - Não há controle de oferta de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas, principalmente as sedativas como álcool, solventes e tranquilizantes ou estimulantes como anfetaminas (emagrecedores e rebites), cocaína e crack;
6 - Trocamos um relacionamento rico e saudável (coletivo) por outro egoísta e doentio (individualista), o qual está afligindo a sociedade. Consegue-se acabar com as doenças preveníveis (como as infecciosas) e morre-se de outras geradas pelo próprio homem (dependências químicas, violência, acidentes).
Em toda as conversas que tenho com os estudantes eles comentam que a droga (coisa ruim) de tudo isso é a própria sociedade e que é preciso mudar a nossa maneira de agir para que ela não se torne uma droga pesada, o que está acontecendo em muitos centros urbanos.
Faz parte da cidadania se interessar pelos problemas coletivos e contribuir para resolvê-los. O conhecimento técnico adquirido graças à sociedade, que me permitiu obtê-lo em uma faculdade pública, está sendo devolvido. Faz parte do meu sonho ver a sociedade acordar e mudar seu comportamento para que ela deixe de ser a coisa ruim que é hoje. Não é nela que quero educar meus filhos.


