O desabafo é de Lúcia, de 45 anos, mãe do jovem Marcílio, de 19 anos, viciado em drogas desde os 14. Ela se tornou notícia nacional quando, em desespero, acorrentou o filho em casa para não deixá-lo sair. O drama foi registrado pela FOLHA em 16 de dezembro do ano passado.

Nesta entrevista, a mãe contou em detalhes como a família mergulhou nesse pesadelo e disse que o medo maior é que o filho seja assassinado por traficantes ou por pessoas de quem roubou algum objeto. Simples, nascida no sítio, e sem saber a quem recorrer, ela contou que seu outro filho, de 27 anos - e pai de oito crianças - também é viciado em crack.

Após a publicação da matéria, Marcílio foi internado, mas fugiu. Ele retornou ao bairro em que a família mora, em Rolândia, voltou a roubar e hoje vive escondido dos credores. A história de Lúcia representa, em estágio avançado, o sofrimento causado pela droga em milhares de famílias brasileiras. Para manter a integridade da família, os nomes são fictícios.

Como a senhora descobriu que o Marcílio usava drogas?
Quando ele tinha 14 anos eu peguei ele cheirando tiner. Com 15 anos, ele estava cheirando cola. Aos 16 anos, peguei ele fumando maconha. Aí, com 17 anos, eu peguei ele fumando 'nóia' (crack), que é o que está até hoje. É um sofrimento muito grande para a família quando o filho começa a mexer com droga. Ele já foi até internado na casa de saúde. De um ano e meio para cá ele começou a roubar. Então aconteceram essas bagunças (teve que prender o filho com corrente e escondê-lo dos traficantes). É conta dele que eu tenho que pagar. Meu marido não ganha muito para a gente ficar pagando conta, né.

Como é o dia-a-dia dele?
Falar a verdade para o senhor, o dia-a-dia é só fumando. Ele fica seis, sete dias sem tomar banho, fora de casa, só fumando e roubando. Quando chega, dorme dois dias inteirinhos e uma noite.

A senhora conversa com ele sobre isso?
Bastante. Como eu converso com ele! Dou conselho, choro com ele, ele chora junto comigo. Anteontem mesmo, a gente conversou e ele chorou: mãe, pelo amor de Deus, arruma uma clínica fechada para eu me internar porque numa clínica aberta não consigo parar. E é isso que estou tentando conseguir. Gente, pelo amor de Deus, não consigo uma clínica fechada. Nem que seja longe daqui, em São Paulo, Mato Grosso, nem que seja lá para o fim do mundo, mas que seja uma clínica fechada para ele se tratar. Ele quer largar.

Ele continua usando?
Continua.

O que ele rouba?
Ave Maria, ele rouba tanta coisa. Celular, bicicleta, tudo o que vê na frente. Aqui em casa, meu relógio já foi. Todas as minhas panelas já foram. Minha roupa, meus lençóis, tudo que tinha dentro de casa ele já levou.

O Marcílio já trabalhou?
Já, ele trabalhou um ano e um mês na telefônica, depois pegou serviço no granjeiro, mas foi mandado embora por causa da droga, ele não consegue trabalhar. Leva falta, né, porque não fica o dia inteiro sem a droga. Sai para ''noiar'' e é mandado embora. Se eu falar, você não acredita, mas ele não fica meia hora sem droga. Parece até um remédio. Se ficar sem, ele fica doente.

E o outro filho da senhora?
Ele mexe com droga também, só que trabalha. O que ele fuma, ele que ganha, né? Ele tem mais juízo nessa parte, graças a Deus!

Ele fuma o quê?
Crack também.

Não dá medo de que ele fique como o Marcílio?
Dá bastante medo, mas a gente ora e pede muito a Deus. Ele tem oito filhos. Diz que não desanda não, mas assim mesmo a gente fica com medo, né?

E como é a vida da senhora e do seu marido hoje?
Olha, falar a verdade, nossa vida é um inferno, Deus que me perdoe. É um inferno. Nós estamos vivendo um pesadelo. A gente não 'veve' uma vida da gente, a gente está vivendo a vida deles.

Por que a senhora acha que os filhos começaram a usar drogas?
Acho que foram as más companhias, porque enquanto a gente podia segurar, a gente segurou.

O que é a droga para a senhora?
A droga para mim é uma coisa tão - Deus que me perdoe -, tão amaldiçoada, que vou falar a verdade para o senhor. Se eu pudesse eu acabava com tudo.

Qual é seu maior temor?
De meu filho morrer matado, esse é meu medo. Pelas artes que ele faz, por 'noiar' e roubar os outros, o que pode acontecer? Uma pessoa que usa droga só tem dois caminhos: a cadeia ou o cemitério.

A senhora acha que algum dia ele conseguirá parar de usar?
É nisso que eu confio. Que Deus vai tirar ele dessa. Tenho certeza que Deus tem um plano para a vida dele.

Se pudesse voltar no tempo, o que faria de diferente?
Se fossem pequeninhos, mudava para um sítio bem longe da cidade e criava eles dentro do sítio. Hoje, a minha vida e a do meu marido acabou.

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