Dr. José Ruivo, o homem que era uma biblioteca
Homenagem ao médico e intelectual católico José Ruivo da Silva, que nos deixou aos 96 anos
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quarta-feira, 06 de maio de 2026
Homenagem ao médico e intelectual católico José Ruivo da Silva, que nos deixou aos 96 anos
Paulo Briguet 
Morreu sábado (2), aos 96 anos, em Sertanópolis, Paraná, o médico, escritor e pensador católico José Ruivo da Silva. O Brasil perdeu um grande homem e eu perdi um grande amigo.
No romance de ficção científica “Fahrenheit 451”, o escritor americano Ray Bradbury (1920-2012) mostra-nos uma sociedade do futuro em que os livros são proibidos. Todos os livros encontrados em poder da população são incinerados por estranhos bombeiros que, em vez de utilizar mangueiras de água, trabalham com lança-chamas. Contudo, escondida no meio da floresta, vive uma misteriosa tribo em que todas as pessoas se dedicam a memorizar obras da literatura universal. São os Homens-Livros.
Hoje eu tenho um segredo para contar a vocês: dr. José Ruivo era um dos últimos Homens-Livros do Brasil. Talvez o último.
Católico fervoroso, devoto de Nossa Senhora de Fátima, médico, português, irmão dominicano, membro da Academia de Letras de Londrina, pianista e amigo leal, Dr. Ruivo parecia personagem de um romance histórico. Vivia entre livros e memórias; entre os textos que lia e os textos que escrevia em papel-almaço, com sua letra miúda e caprichada.
Conheci dr. Ruivo em 2015, quando tomei posse na Academia de Londrina, por indicação do saudoso professor Leonardo Prota. Logo nas primeiras conversas, percebi que nos tornaríamos amigos de infância. A amizade se define, como queria S. Tomás de Aquino, pelo lema “idem velle, idem nolle” (gostar das mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas): e é precisamente o que ocorria entre nós. Éramos católicos, amávamos a família, amávamos a literatura, amávamos Fátima, tínhamos posições conservadoras, contávamos piadas e vivíamos entre livros.
A diferença é que a vida de dr. Ruivo daria um grande romance; a minha, talvez algumas crônicas. Nascido em Portugal, no dia 25 de dezembro de 1929, ele se formou em medicina e tornou-se um competentíssimo cirurgião. Em sua longa carreira, realizou mais de 30 mil cirurgias, aliviando incontáveis sofrimentos e salvando incontáveis vidas. Além de Portugal, viveu no Timor Leste e na Austrália. No Timor, à época uma colônia portuguesa, escapou por pouco da morte nas mãos de militantes comunistas, que iniciaram o massacre de 200 mil timorenses em 1975, genocídio depois completado pelos exércitos do ditador indonésio Suharto. Veio para o Brasil em 1978, graças ao apoio do saudoso João Milanez, fundador da Folha de Londrina.
Muitos dos livros que indico em minhas crônicas e aulas me foram presenteados — isso mesmo, presenteados — pelo meu amigo português. Enquanto escrevo este artigo de despedida, estou rodeado dos livros de dr. Ruivo. Aqui, bem ao meu lado, tenho “Pelos Vales Escuros”, de Walter C. Ciszek, livro que contém o testemunho espiritual de um padre católico americano que viveu 19 anos em prisões e campos de trabalho forçado da União Soviética. Ali na frente, já lido e anotado, tenho “Nove ateus mudam de ônibus”, que reúne perfis de intelectuais que se converteram ao cristianismo, entre eles André Frossard, Edith Stein, Fiodor Dostoiévski, Vittorio Messori e G. K. Chesterton. Sempre ao alcance da mão, está “A Suma Teológica em forma de Catecismo”. Ali na sala “O Concílio Vaticano II — Uma História Nunca Escrita”, de Roberto de Mattei. E há muitos outros. Dr. Ruivo, não apenas com seus presentes, mas também com suas conversas e conselhos, pode ser considerado uma espécie de todas as minhas crônicas.
Os Homens-Livros de Ray Bradbury decoravam as obras clássicas. A palavra “decorar” originalmente quer dizer guardar no coração. Dr. Ruivo foi um autêntico Homem-Livro, por guardar em seu coração os tesouros de nossa Igreja e de nossa cultura. Agradeço a Deus por ter sido amigo dele.
Paulo Briguet, jornalista


