Dr. buscador e as demandas do paciente conectado
Vitor Asseituno
Anos 40. Em meio a uma sociedade que sofria as mazelas dos conflitos armados que assolavam o mundo, dr. Humberto O. Swartout lança "O Conselheiro Médico do Lar", publicação que se tornaria referência em orientações para primeiros socorros e cuidados domésticos do paciente. Nessa mesma década, pesquisadores norte-americanos criavam aquele que seria considerado como o precursor dos computadores da era digital, o Eniac (Electronic Numerical Integrator Analyzer and Computer).
Pacientes independentes e tecnologia em pleno desenvolvimento: ameaça às práticas médicas? Muita coisa mudou nas décadas seguintes, mas o interesse da sociedade em obter informação qualificada permaneceu. Práticas tradicionais e a opinião de familiares, amigos e figuras públicas ainda têm influência sobre a vida das pessoas. Só que agora, as conversas e conselhos, antes restritos à vizinhança, encontros sociais e telefonemas, ganharam um amplo potencial de alcance.
Com a popularização da internet o ditado "De médico e louco, todo mundo tem um pouco" se mostra mais real do que nunca. Comunidades que incentivam a troca de experiências pessoais, redes sociais e buscadores são exemplos de ferramentas que fomentam o diálogo e evidenciam comportamentos. Se a tecnologia é um caminho sem volta e a voz do cidadão foi empoderada, como médicos e pacientes podem se beneficiar das novas tecnologias sem prejudicar sua relação e, acima de tudo, preservar vidas?
A publicação da resolução CFM nº 2.126/2015, em outubro deste ano, colocou em pauta questões relevantes para a preservação da privacidade e segurança de profissionais da saúde e pacientes. Nela, o Conselho Federal de Medicina estabelece os parâmetros a serem observados pelos médicos em questões como selfies (autorretratos) em situações de trabalho e de atendimento, diagnóstico e prescrição a distância e proibição aos médicos, inclusive lideranças de entidades da categoria, de participarem de anúncios de empresas comerciais ou de seus produtos, qualquer que seja sua natureza. Em meio ao crescente número de usuários de mensagens instantâneas que, assim como seus antepassados, têm buscado a conveniência de tirar suas dúvidas com um médico de confiança, os parâmetros fixados pela Resolução se apresentam bastante oportunos.
A iminente busca por orientação qualificada no ambiente on-line também não pode ser ignorada pelo corpo clínico das instituições, tampouco vista como uma ameaça às consultas presenciais. Ambientes informais como fóruns e comunidades são celeiro de informações relevantes sobre as reais necessidades e experiências dos pacientes, fornecendo subsídios para o desenvolvimento de soluções cada vez mais assertivas. Além disto, observando-se as regras estabelecidas pelo órgão que fiscaliza e normatiza as práticas médicas, profissionais de saúde podem contribuir com conteúdos de qualidade que apoiem e orientem os cidadãos a tomarem decisões seguras para os cuidados com sua saúde.
Paciente conectado não é sinônimo de cuidados fora do consultório. Seja de forma presencial ou virtual, cabe aos profissionais de saúde ensinar aos pacientes sobre as boas tecnologias e sua correta aplicação, sempre lembrando que nenhum aplicativo, robô, ou qualquer outra tecnologia substitui um abraço carinhoso em um momento de dor.
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres.
Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br





