O cardeal d. Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito (aposentado) de São Paulo, defende a abolição do celibato para os padres diocesanos, mas não acredita que essa medida venha a ser adotada enquanto João Paulo II viver. No momento, a questão está oficialmente fora de discussão.
‘‘A decisão dependeria do papa, mesmo que tivesse a aprovação da maioria dos bispos’’, observou d. Paulo. O cardeal revelou que, no começo dos anos 70, o papa Paulo VI lhe disse que permitiria que os padres casassem, se houvesse consenso a esse respeito no episcopado mundial. Não havia.
No caso de abolição do celibato, que foi instituído pela Igreja por volta do ano 1000, a dispensa valeria apenas para o clero diocesano ou secular, ou seja, para os sacerdotes que trabalham nas dioceses sob jurisdição dos bispos. Os religiosos, que pertencem a ordens ou a congregações, continuariam celibatários, porque fazem votos de pobreza, obediência e castidade.
‘‘O celibato seria opcional para os padres diocesanos e obrigatório para os religiosos’’, disse d. Paulo. Essa mudança poderá ocorrer nos próximos anos, se um dos sucessores de João Paulo II pensar como Paulo VI. ‘‘É possível que, acompanhando a evolução da sociedade, a maioria dos bispos venha a apoiar essa proposta’’, prevê o cardeal.
Em sua avaliação, o fim do celibato não prejudicaria o trabalho pastoral dos padres diocesanos. D. Paulo lembra o exemplo não só dos pastores evangélicos, mas também dos sacerdotes católicos que, fora da Igreja de rito latino, podem ser casados e, nessa condição, exercem com dedicação e eficiência o seu ministério.
D. Paulo adverte que não defende essa posição por causa das denúncias de crimes de pedofilia e de outros abusos sexuais que envolvem sacerdotes. ‘‘Não se deve misturar pedofilia com celibato nessa discussão’’, aconselha o cardeal, insistindo que uma coisa nada tem a ver com a outra.
‘‘Pedofilia, que significa afeição à criança, não implica ato sexual, embora a expressão seja usada com essa conotação’’, observa d. Paulo, recorrendo ao dicionário para explicar o sentido etimológico do termo. ‘‘Quem abusa de crianças deve ser punido e isso vale também para o padre’’, afirma.
Na opinião do cardeal, é injusto acusar todo o clero, como tem ocorrido nos Estados Unidos, por causa do erro de alguns sacerdotes. Embora ressalve que isso não justifica o erro, d. Paulo observa que o número de padres pedófilos é pequeno em comparação com os casos de abusos de crianças em outros segmentos, incluindo a família.
O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Raymundo Damasceno, declarou que o celibato não está em discussão na entidade. ‘‘O que tem havido são manifestações pessoais, que eu respeito’’, disse o bispo.
Em sua última assembléia, encerrada no dia 19 em Itaici, distrito de Indaiatuba (SP), a CNBB refletiu sobre as denúncias de escândalos sexuais, mas não sobre a possibilidade de os padres se casarem. ‘‘Celibato, que é uma opção livre e consciente, nada tem a ver com pedofilia, um distúrbio de comportamento’’, adverte d. Damasceno.

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