Dos sentimentos de liberdade - Walmor Macarini
Dos sentimentos de liberdade
Walmor Macarini
Um dos grandes anseios do homem é ser livre. Mas o que é ser livre? Para alguns é simplesmente não estar na cadeia. Há os que, estando soltos, vivem como aprisionados; e encarcerados que encontraram a liberdade por trás das grades.
Há aqueles que se imaginam em liberdade frequentando todos os lugares e vivenciando exuberantes situações, mas se esta é uma condição que impõem a si próprios, acabam prisioneiros dessa dependência. E há os que buscam tanto por liberdade que quando a encontram não sabem utilizá-la. Outros a têm, embora passem a vida inteira sem dela fazer uso. Se a perdem, inquietam-se, mesmo conscientes de que a tendo, não se servirão dela.
Os militantes políticos obcecam-se pela liberdade de protesto, prisioneiros que são dessa idéia, mas se frustram se não há alguém que tente impedi-los. Alguns, quando alcançam o objetivo de suas campanhas libertárias, lançam-se imediatamente em outras, porque não conseguem viver na harmonia do benefício conquistado. Outros se nutrem da liberdade de ser contra, e perturbam-se se não encontram reacionários.
Tantos outros atravessam um grande tempo de sua vida em busca da liberdade de fazer algo que não lhes era permitido, e quando finalmente o alcançam já não sentem nisso nenhum sabor.
Homens querem livrar-se das mulheres com quem vivem, e quando delas se libertam percebem que essa liberdade os fez prisioneiros da busca de outra mulher. Mulheres anseiam safar-se daqueles com quem convivem, e quando afinal o conseguem não sabem administrar essa nova situação e ficam aprisionadas pela solidão da liberdade.
Presos como se encontram, muitos não se apercebem libertos; e tantos outros, livres que são, não têm a consciência da liberdade. Muitos se limitam na expansão da liberdade e outros se expandem nos limites da prisão.
Os impedidos da fala anseiam pela liberdade de dizer, mas se lhe é dada a oportunidade, percebem que nada têm a declarar. E há os que, livres para falar o que querem, só manifestam este desejo quando lhes dizem que não podem. Uns são livres e imaginam-se perseguidos. Tantos querem ser livres para saírem sós, e quando saem, a primeira coisa que fazem é procurar companhia.
Há aqueles que estão sempre buscando liberdades que nem sabem definir quais são. E os que querem a liberdade de cair na liberação geral, mas aí ficam aprisionados pelas consequências e delas não sabem libertar-se.
Uns se proclamam tão livres que recusam as idéias de outrem, sem aquilatar que, se fossem realmente livres, seriam receptivos a todas as idéias, eis que a liberdade manifesta-se no mais das vezes no aceitar e não no recusar. Outros não querem ser maria-vai-com-as-outras, por considerar-se livres para decidir, quando poderiam ser livres para ir com as marias desde que cônscios de que estariam indo por sua livre decisão.
E há os que querem ser livres para caminhar pela contramão, porém sempre desejando ser notados, presos à expectativa de que o chamem, para terem o prazer de dizer não.
Mas o que é afinal ser livre?
Ser livre é estar na serenidade para ensinar, mas sobretudo estar na humildade para aprender. É sentir-se liberto dentro de imaginárias limitações. Livre é aquele que consegue concordar com os discordantes. Que é destemido para dizer e sobretudo para silenciar. É aquele que, soberano em sua consciência de liberdade, não se melindra com nada.
Livre é o que pode viver sem o aplauso. Porém livre é também o que não demonstra falsa modéstia ante o aplauso, mas o aceita e ufana-se disto.
Livre é o que nunca está em conflito, mesmo que sobre ele desabe o mundo. É aquele liberto dentro de si próprio, porque nada o atinge. Que não está cativo a obsessões de liberdade. O que, amando, tem a liberdade de dizer que ama; que odiando, admite seu ódio, reconhece-o, mas consegue transmutá-lo, e perdoa. É aquele que não se sente diminuído por pedir desculpas.
Livre é o que não se prende ao egoísmo de negar o reconhecimento. É aquele que, percebendo-se em equívoco depois de tanto tempo acreditando estar fazendo o certo, é capaz de livrar-se dos condicionamentos e tomar um novo caminho.
Ser livre é aquele que, por ser, não mensura limitações e nem liberdades, eis que nem as identifica. Ser livre é não aprisionar as próprias lágrimas. É contemplar o universo e compreender-se inserido nele, interagindo nessa imensurável vastidão que compõe tudo o que é e existe. Ser livre é aprisionar-se ao amálgama do amor universal.
Ser livre é não necessitar de liberdades. Ser livre é apenas ser.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





