Um dos grandes desafios do jornalismo é tratar velhos e recorrentes temas com alguma pitada de ineditismo – que sempre existe, diga-se de passagem. A Argentina é um exemplo clássico disso. Pacote econômico baixado por algum presidente de plantão do vizinho em crise, à primeira vista, já não contém apelo jornalístico. São tantos planos econômicos, tão parecidos e próximos um do outro, que dão sempre a idéia de notícia velha. É um engano. Agora mesmo, quando a Justiça argentina acaba de derrubar o ‘corralito’, bem conhecido entre nós como confisco, as notícias sobre a medida não só nos informam a respeito do que se passa aqui bem perto, no cambaleante bloco, como certamente remetem milhões de brasileiros de volta ao passado, quando um presidente também de plantão congelou boa parte do dinheiro dos correntistas. Aqui, a Justiça não fez o mesmo que na Argentina. A população também não saiu às ruas batendo panelas e pedindo a queda de uma Corte inteira. Reclamou, desabafou, ironizou... e aceitou. Enquanto conta a história do momento presente – os argentinos às voltas com as suas contas bloqueadas – o jornal faz, também, uma espécie de catarse de um trauma coletivo. O que teria acontecido se tivéssemos reagido como os ‘hermanos’? Com o distanciamento de mais de uma década, a cena argentina estampada no jornal – com cara de filme já visto – acende a memória nacional.
Ruth Meira
Chefe de Reportagem

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