Deu no jornal: o médico londrinense Maurício Soubhia está detido no 30º Batalhão de Infantaria Motorizada, em Apucarana, por ‘‘crime de insubmissão’’. Aos 18 anos ele fora dispensado do serviço militar, por excesso de contingente, porém depois (já estudante de Medicina) foi selecionado para servir como oficial médico. Agora (aos 25 anos) foi convocado, e teria que servir em Cascavel, mas como faz residência médica no HU não se apresentou dentro do prazo, daí a prisão. Agora ele aguarda julgamento da Justiça Militar.
Caso estranho, e a gente nem imaginava que coisas assim acontecem.
O fato excita a discussão de duas questões: a obrigatoriedade, no Brasil, de o cidadão maior de 18 anos apresentar-se para o serviço militar, quer goste ou não, e (a questão mais intrigante) se uma nação precisa ter exército. Há países superdesenvolvidos que não o tem, e se tem é um contingente tão inexpressivo que dele nem se tem notícia. No Brasil temos um exército, com 250 mil homens e seus fuzis e metralhadoras (já meio enferrujados, é verdade), canhões e tanques, navios, submarinos, até um porta-aviões velho-de-guerra que os Estados Unidos nos venderam para desovar sucata, aviões convencionais, os gorduchos ‘‘Búfalo’’ cansados de tanto voar pelas guerras ‘‘made in USA’’, e os jatos F-15, soberanos, singrando os ares verde-amarelos-branco-anil destes céus do Brasil. E os nossos pracinhas! Que na última grande guerra foram brigar com os italianos, em território deles, logo os italianos, cujos antepassados tinham vindo nos ensinar a fazer a macarronada e a pizza, o vinho e o carpaccio, que já enriqueciam o Brasil com sua força de trabalho e seus conhecimentos agrícolas e fabris. Hoje velhos pracinhas e velhos imigrantes italianos (e até alguns combatentes peninsulares que acabaram também imigrando para cá) confraternizam-se na mesma pizzaria. E viva o Brasil e a Itália! E o Palmeiras! Tutti buona gente. Pergunta-se agora quem era, afinal, inimigo de quem!?
Guerras são inventos humanos totalmente idiotas.
O deputado federal Fernando Gabeira é autor de um projeto de emenda à Constituição que torna facultativo o serviço militar; ou seja, que o faça só quem o queira. Isto convertido em lei profissionalizaria o Exército.
A classe média brasileira é declaradamente favorável à existência do serviço militar, mas longe de imaginar que o seja porque identifique nas forças armadas um organismo de defesa nacional, de segurança. Falta-lhe este patriotismo. Afunila-se no ingênuo egoísmo de que pode ser uma saída profissional para o filho, que não vê perspectiva de chegar à Universidade, então entra para o Exército, aí entendidas também Marinha e Aeronáutica. E porque o exército é uma instituição disciplinar. Em tempos passados, quando ainda não floresciam as indústrias e os serviços, e os jovens viam suas possibilidades limitadas ao trabalho na agricultura, o sonho deles era entrar no Exército ou no seminário. Ser militar ou ser padre. Hoje poucos querem ser padres, mas ainda persiste o ideal, de muitos jovens de classe média/pobre, de vestir uma farda. Se não for possível antes vestir, em campo, a camisa de um grande time de futebol... Não é nem amor ao Exército nem ao futebol, mas a um emprego, ao aceno de uma melhor posição de vida. O jovem rico já não se fascina com isto.
O brasileiro não é amante de guerras, como o é, por exemplo, o norte-americano. Quando dois americanos se encontram, e isto vemos até no cinema, o que eles se perguntam primeiro é onde cada um serviu. E dão-se soquinhos de cumprimentos na barriga, à moda dos boxeadores, porque a luta está no fluxo sanguíneo deles. Já o brasileiro, quando reencontra um velho amigo, cumprimenta-o com um abraço.
Se o brasileiro não é apreciador de guerras (e se for convocado para uma dirá, com certeza: ou mato ou morro, ou seja, foge para o mato ou para o morro), então por que o serviço militar obrigatório? Os nossos jovens não precisam ser alimentados com ideais de guerra, porque isto não é da nossa índole. Quando muito, os arroubos dos ‘‘braços armados’’ das esquerdas ainda festivas.
Exércitos, em qualquer país, servem à causa da destruição, nunca à causa da salvação, porque seus instrumentos não são nem bálsamos nem bisturis. Não falo daqueles que se embrenham em missões de salvamento, das obras da engenharia do Exército, que isto é outra coisa. Mas um homem em armas não é, com absoluta certeza, alguém que esteja preparado para salvar uma vida, mas para destruir uma. Se alguém brande uma espada, já sabemos qual é sua intenção. Uma guerra é sempre uma ausência de diálogo. Se nenhuma nação tivesse exércitos ninguém invadiria os espaços do outro. Contingentes armados atraem conflitos. Homens armados atraem encrencas. Idéias de confronto atraem confronto, porque os iguais se identificam e se sintonizam.
Um médico detido por ‘‘crime’’ de insubmissão! Que estranho conceito de crime! Se não estamos em nenhuma guerra e não há soldados feridos, vamos deixar o médico no HU, que lá é o seu lugar! Se algum paciente morrer, pela ausência do médico preso, vamos ter que responsabilizar o batalhão!

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