Dos conceitos de justiça
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quarta-feira, 18 de junho de 2003
Walmor Macarini 
Viceja nas pessoas uma exacerbada vontade de ver fazer-se justiça quando ela signifique punição. E se ficam desapontadas com a justiça terrena, remetem o processo para a justiça divina, o que no fundo é o desejo de ver concretizado o anseio de vingança delas mesmas. As pessoas querem um modelo de justiça divina que atenda à sua própria forma de exercê-la. Não se sabe se esse modelo se alinha com a justiça superior, mas as pessoas imaginam que há uma ira celestial semelhante à ira dos homens, e que aqueles que conseguem safar-se das malhas da justiça humana encontram logo a justiça divina com uma rede para capturá-los. E confortam-se com essa idéia.
Raramente as pessoas desejam, para os chamados maus, que a justiça divina os contemple com a luz da iluminação, para que saiam da condição em que se encontram. Esta seria a verdadeira manifestação de amor, de que tanto se fala mas pouco se exerce. Por justiça divina, entendem em primeiro lugar a condenação. E não se pode garantir que o código divino estabeleça exatamente isso. Não se sabe o que o entendimento dessas legiões mais elevadas qualifica de bom e de mau, mas é bem provável que a avaliação seja diferente do que supõem as pessoas. Na verdade, querem elas que a justiça divina opere segundo conceitos da justiça dos homens. E assim, ao entregar-lhe a decisão final, ditam-lhe também as regras que devem ser seguidas.
Certamente que para leis divinas existam igualmente uma justiça pertinente - sem o sentido de tribunal punidor - mas essas leis e essa justiça as pessoas desconhecem, portanto não podem preestabelecer sentenças. Tais leis podem ser diferenciadas das que estão nos códigos humanos.
Nada resulta de virtuoso as pessoas remeterem para a justiça divina as questões não resolvidas e os desejos não satisfeitos de punição. Elas nem deveriam manifestar, seja por sentimento ou palavras, essa morbidez pelo justiçamento, porque tal nada mais é que a erupção dos furúnculos do ódio. Ademais, essas emanações acabam retornando ao ponto de partida e causam estragos correspondentes à sua intensidade.
A justiça divina certamente não opera por prejulgamento ou emoção, à maneira dos homens, mas segundo um princípio mais inteligente, estribado na lei da causa e efeito que remonta a presente e passado e a anterioridades ainda mais remotas e esta é a mais sábia das leis e das justiças. Preciso seria primeiro conhecer a fundo esse princípio, mas as pessoas mal conhecem a si próprias. Quando compreenderem por que as coisas acontecem, aí terão compreendido o que é justiça divina. E então já não sentirão necessidade de aplicar justiça alguma, no sentido como a entendem.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


