Dos clamores odiosos por justiça
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quarta-feira, 02 de novembro de 2005
Walmor Macarini 
Não se iludam as pessoas que buscam a justiça terrena, porque a justiça não é deste mundo. O código dos homens não a contempla. Embora defender princípios de justiça, e valer-se deles, seja uma prática dos homens, a justiça como a conhecemos é apenas um artifício regulador de punições e favorecimentos humanos. Ela não encerra em si nenhuma sabedoria. Se todas as coisas debaixo do sol são direitos naturais de todos, a proclamada justiça nada mais faz que quebrar essa regra e fragmentar o bem comum em pedaços desumanamente desiguais.
O que deveria ser uma equivalente participação de todas as pessas nas riquezas terrenas, converte-se numa rígida sistematização, a que se dá o nome de direito de propriedade, que subtrai em favor de poucos a parte que cabe a muitos. Só uma terra sem leis mas de homens sábios implantaria a igualdade. (Este não é certamente um tema para discussão à sombra do legalismo e da banca dos doutos em ciências do direito).
Mas qual é então a justiça, que não a deste mundo? Imagina-se que seja a que os homens denominam justiça de Deus. As pessoas a invocam com frequência, e no mais dos casos como uma esperada ação punidora a cargo das elevadas esferas, de forma a vingar ódios contra aqueles que lhes fizeram algum mal. Deus, então, seria o instrumento da desforra não conseguida aqui da forma que desejavam.
Não é assim. A lei divina é o sábio ordenamento do semear e do consequente colher. Diz-se a lei de Deus. Que é a lei cósmica que rege todas as coisas. Porque um suposto Deus individual, à margem da Criação, este não existe, então nada no Universo se move por emoção mas por um sábio princípio de causa e consequência.
A dor sofrida neste mundo só encontrará recompensa nos planos que nos aguardam após a jornada terrena na exata proporção em que saibamos administrá-la. Porque dor com anseios de vingança, face ao que alguém tenha causado a nós ou a familiares, e clamores por justiça divina impregnados de ódio, se converterão em novo e pesado fardo para quem estiver por trás desses desejos.
Portanto, a justiça divina de que se fala para o melhor e para o pior ocorrerá segundo a leveza ou a densidade de cada um. Só a lei do sábio entendimento e do perdão nos tornará leves para alçar vôos altos. A Suprema Sabedoria que administra todas as coisas do Universo, a que o homem dá o nome de Deus, disponibiliza todos os meios para isso (e esta é a misericórdia), mas somos nós que criamos a justiça divina para nós próprios.
Cada qual, portanto, poderá saber qual será essa justiça, bastando decifrar o próprio sentimento. Não é a justiça que os outros querem nos impor e imaginam que assim será. Não é possível ludibriar a própria consciência ou imaginar que ela se esqueça de elaborar a listagem das nossas virtudes. Cada um de nós é quem dita a própria sentença divina.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


