DONO DO NARIZ - Profissional de hoje é responsável por direcionar carreira
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quarta-feira, 09 de junho de 2010
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Até algum tempo atrás, o bom empregado era aquele que tinha poucos registros na carteira de trabalho. Não raro, se aposentava na empresa onde trabalhou a vida toda e entrara para exercer funções simples antes de chegar a cargos mais altos. Essa trajetória muitas vezes era determinada pelo patrão, que escolhia os cursos de especialização para o empregado.
Esse panorama, no entanto, está se modificando. É cada vez mais comum que o profissional dirija a própria carreira, escolhendo sua área de preferência. Muitas vezes, no entanto, optar por ser ''dono do próprio nariz'' pode gerar dúvidas na hora de fazer suas escolhas.
Para a consultora de transição de carreira Sueli Aznar, o profissional que toma as rédeas da própria carreira precisa fazer uma ''profunda reflexão sobre sua trajetória profissional'' e verificar as ''oportunidades de mercado.'' ''A partir daí é possível traçar um plano objetivo de desenvolvimento de carreira, que deve contemplar todos esses elementos observados para estabelecer objetivos, ações e prazos. É importante ressaltar que mesmo para profissionais que já têm uma carreira em curso, construída sem planejamento, é possível estruturar um bom plano futuro'', aconselha.
Antigamente, o profissional ideal era o que permanecia a vida toda em um só emprego. Essa visão mudou ou ainda há áreas onde o conceito permanece?
Estamos passando por um momento de transição importante. As empresas estão mudando e consequentemente o mercado de trabalho também. Mas as mudanças não são lineares, vão se consolidando em tempos diferentes nos diversos setores e segmentos e, então, o que temos hoje é um cenário em que empresas com modelos mais tradicionais de gestão convivem com empresas de vanguarda.
Desta forma, as carreiras são impactadas pelos cenários que os profissionais encontram durante sua trajetória profissional: ora são valorizados pela permanência por mais tempo em uma determinada empresa na qual tiveram boas oportunidades; ora pela flexibilidade que tiveram na adaptação a novos empregos, impulsionada pelas mudanças organizacionais constantes. Em qualquer dos casos, o profissional terá que saber ''advogar'' a seu favor quando for relatar o tipo de experiência que tem.
O que acarretou a mudança de perfil do profissional?
O perfil dos profissionais está se transformando em função da mudança de paradigma da gestão de pessoas. O modelo de gestão contemporâneo admite que é a partir das pessoas que as empresas se relacionam com os diferentes stakeholders (cliente, acionista, fornecedores, sindicatos, comunidade). (Por isso) É preciso contratar e desenvolver colaboradores com capacidade de agir autonomamente em seus diferentes postos, transmitindo os valores da empresa, com os quais devem estar profundamente alinhados. Isto significa que devem conhecer o negócio como um todo, não apenas a sua especialidade. São os chamados ''especialistas com visão generalista'', capazes de se articular com desenvoltura dentro e fora da empresa.
Quais são as características fundamentais que as empresas procuram nos profissionais de hoje em dia?
Além dessa capacidade de articulação e comunicação citadas, a rápida apreensão das novas tecnologias e a constante atualização são fundamentais em qualquer posição. Na nossa experiência com posições de nível executivo, estatisticamente, as empresas indicam as seguintes competências como fundamentais: visão estratégica (100%), visão sistêmica (100%), foco no cliente (100%), foco em resultado (100%), gestão de mudança (100%), negociação (100%), construção de parcerias (80%) e excelência nos serviços (70%). A pesquisa teve como base mais de 8 mil avaliações, em 200 empresas.
Quais as principais dicas para o profissional que deseja gerenciar sua carreira?
A gestão de carreira parte de uma profunda reflexão sobre a trajetória profissional, na qual são analisadas as competências adquiridas com a experiência, formação e atualização e também os interesses atuais expectativas futuras. No passo seguinte, o profissional é orientado a fazer o ''teste de realidade'', isto é, observar o mercado e verificar a aderência daquilo que ele pode e quer oferecer em relação às oportunidades de mercado.
A partir daí é possível traçar um plano objetivo de desenvolvimento de carreira, que deve contemplar todos esses elementos observados para estabelecer objetivos, ações e prazos. É importante ressaltar que mesmo para profissionais que já têm uma carreira em curso, construída sem planejamento, é possível estruturar, a partir de qualquer ponto, um bom plano futuro.
Qual a contribuição que o gerenciamento de carreira proporciona para o profissional em situações de crise, como o risco iminente de demissão?
As situações de crise não surpreendem profissionais que fazem o gerenciamento da própria carreira. Em geral, eles as anteveem, estão preparados financeiramente para suportar transições e, especialmente, estão preparados profissionalmente para novos desafios. Quando a crise se aproxima, o profissional deve manter atitude serena e atenta, procurar manter seu ritmo de contribuição e avaliar a cada momento as possibilidades de ganho e de perda, para posicionar-se diante do problema e tomar sua decisão. Em nossa experiência, situações de demissão sempre impactam o profissional, mesmo os mais experientes.
O que o profissional deve fazer para se manter competitivo?
Muito se fala de empregabilidade, e de fato é importante que o profissional tenha a constante preocupação de manter-se atualizado em sua especialidade, bem informado e conhecedor do seu mercado. Mas há algo pouco comentado mas fundamental, que tem como base algo que não se pode ler em currículos, mas que é um diferencial importante: a reputação do profissional é seu melhor atributo. Construir relacionamentos profissionais calcados na colaboração com colegas, no compartilhamento de conhecimento e na excelência na prestação de serviço é a melhor forma de ser lembrado e reconhecido.
E qual é o papel do consultor de carreira nesses processos?
É andar ombro a ombro com o profissional, apoiando e clarificando aspectos trazidos em sua reflexão sobre a carreira e suas expectativas. O consultor faz o ''espelhamento'' do que o profissional está dizendo, oferece informações, propõe exercícios, estimula a verificação dos dados da realidade do mercado, sempre com o objetivo de facilitar as escolhas e a preparação para as ações necessárias para a realização do plano.


