Morreu Dona Zica, o grande coração da Mangueira. Modestamente, fui seu amigo. Na década dos anos 50, no auge da luta estudantil brasileira, inúmeras vezes fui ao Rio de Janeiro em missões da Juventude Comunista. Congressos da valorosa União Nacional dos Estudantes; reuniões com membros nacionalistas do Congresso Nacional; reuniões da Federação Nacional dos Jornalistas e tantas outras frentes de luta das quais participei.
Nos raríssimos momentos de folga das missões para a revolução que não veio, para as quais nossa dedicação era em ''tempo integral'', dois pontos de encontro eram sagrados: o bar Lamas, no Largo do Machado, onde tantas vezes virei a madrugada bebericando com os colegas, companheiros e amigos Aloísio Biodi, o Milton Coelho da Graça e o ''guri'' Moacir Andrade - entre tantos outros que já me escapam da memória -, e o restaurante Zicartola - na estreita rua que não me lembro agora o nome - entre o Largo da Carioca e a Praça Tiradentes. As feijoadas e as peixadas de Dona Zica não vou esquecer jamais.
Quantas vezes ela e o Cartola sentaram à nossa mesa para um proseado descontraído sobre a vida e os acontecimentos que da Cidade Maravilhosa se espalhavam para o Brasil: o suicídio de Getúlio, as tentativas de golpe contra a posse de Juscelino, a derrota do nacionalista Sérgio Magalhães para o fascista Carlos Lacerda na eleição para o governo do Estado da Guanabara; entre outros. As apresentações do Formigão e a divina Elizete - num tablado, onde ficava o conjunto musical dos sambistas da Mangueira, à esquerda de quem olhava para os fundos do restaurante - também não.
Lembro o dia em que, jantando na companhia do grande amigo Newton Stadler de Souza, nos preparativos de uma das mais importantes reuniões da Federação Nacional dos Jornalistas - quando impedimos que um grupo ligado ao Jânio Quadros e ao Carlos Lacerda tomasse de assalto a Federação - um jovem maranhense escurão sentou à nossa mesa e pediu para que lhe pagasse o jantar. Era recém-chegado ao Rio e estava duro. Solfejou e cantou, tamborilando na caixa de fósforos, trechos da canção que estava compondo e que viria a ser mais tarde uma das peças importantes da música popular brasileira: ''Carcará''.
A morte de Dona Zica me faz lembrar estes e outros momentos importantes da minha prolongada juventude. Minha alma chora, desejando à Grande Dama da Mangueira, onde estiver - se estiver em algum lugar que a minha iconoclasta descrença no sobrenatural e no mundo do além não consegue atinar - que repouse em paz.
MILTON CAVALCANTI é jornalista em Curitiba

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