Há vinte anos falecia em São Paulo o primeiro bispo e primeiro arcebispo de Londrina. A figura de Dom Geraldo Fernandes Bijos ainda está por merecer uma justa análise por parte da ciência histórica. Com efeito, a sua atividade como religioso claretiano e principalmente como bispo de Londrina foi intensa e variada. Assumindo uma diocese recém-criada, Dom Geraldo teve a rara oportunidade de imprimir na igreja londrinense as marcas essenciais do seu carisma. Assim, durante os 25 anos (1957/82) em que presidiu a Igreja de Londrina, desenvolveu plenamente uma atividade pastoral voltada para a concretização do carisma que lhe motivou a existência. Desse modo, conhecer um pouco a vida e as atividades de Dom Geraldo é mergulhar numa fase importante e decisiva da temporalidade norte-paranaense e brasileira, um tempo de grandes desafios e mudanças.
Nasceu em Contagem (MG) a 1º de fevereiro de 1913. Órfão de pai aos nove anos, teve que ajudar na manutenção da família. Sentindo fortemente o chamado divino, foi coroinha no santuário de Lourdes em Belo Horizonte e ingressou na Escola Apostólica dos padres claretianos. Em Guarulhos (SP), fez seus estudos secundários e sua primeira profissão religiosa no dia 10 de fevereiro de 1929. Depois de estudar filosofia em Rio Claro (SP), começou a teologia em Curitiba. Antes de terminar a teologia foi enviado a Roma para concluir o curso na Faculdade Angelicum. Foi ordenado sacerdote a 25 de outubro de 1936, em Roma, e celebrou sua primeira missa nas catacumbas.
De volta ao Brasil, Dom Geraldo foi professor de teologia moral e direito canônico em Curitiba; diretor da revista Ave Maria, reitor do Studium Theologicum de Curitiba e vice-provincial dos padres claretianos. Em 1956, foi nomeado pelo Papa Pio XII primeiro bispo de Londrina. Sagrado em São Paulo, a 13 de janeiro de 1957, assumiu a diocese a 17 de fevereiro do mesmo ano.
Como bispo de Londrina, teve a oportunidade de organizar pela base a nova diocese. Um problema premente era a falta de clero. Para remediá-la de imediato, atraiu para Londrina sacerdotes de várias congregações religiosas e padres seculares da diocese de Malta. Incentivou e atraiu também várias congregações religiosas femininas para atuar na área assistencial e educacional e ele mesmo, juntamente com Madre Leônia Milito, fundou uma nova família religiosa, a Congregação das Missionárias de Santo Antônio Maria Claret.
Fiel ao carisma do anúncio da palavra e o serviço da caridade, fundou a Rádio Alvorada de Londrina, e na TV Coroados sustentou por 12 anos o programa semanal ‘‘A Voz do Pastor’’. Foi também co-fundador do semanário católico ‘‘A Voz do Paranᒒ de âmbito estadual. Seu lema episcopal ‘‘Misericórdia Subsequetur’’ (a misericórdia me seguirá), foi tirado do salmo 22, verso 6, pelo qual se coloca como um instrumento de Deus no mundo. Daí a sua intensa atividade na área social.
Percebemos que esses tipos de obras estão dentro da linha assistencialista, mas não podemos esquecer que essa era a visão da época. A Igreja tinha grande preocupação em agir no sentido de remediar os desajustes sociais com obras caritativas e assistenciais. Hoje a preocupação é mais no sentido de favorecer reformas estruturais que diminuam as mazelas da sociedade. Seja como for, Dom Geraldo agiu com um genuíno espírito cristão e de um pastor atento às necessidades de seu rebanho.
No aspecto material e administrativo, Dom Geraldo modificou a planta da nova catedral, parcialmente construída e levantou uma estrutura em forma de tenda, ‘‘a tenda de Deus entre os homens’’, um projeto simples e prático, embora não necessariamente harmonioso . Durante o seu episcopado criou nada menos do que 42 paróquias.
No início de 1982, depois de intensas atividades, Dom Geraldo teve sua saúde abalada. Em 17 de fevereiro comemorou as bodas de prata de sua posse na diocese e a 23 do mesmo mês internou-se no Hospital do Coração em São Paulo, onde foi operado no dia seguinte, na tentativa de sanar o problema da válvula mitral, mas não recuperou mais a consciência, vindo a falecer no dia 29 de março.
A presença maciça do povo na recepção do seu corpo no aeroporto confirmou a grande estima que lhe dedicava a população católica de Londrina. Dom Geraldo foi sepultado no lado direito do presbitério da catedral e seu túmulo é objeto contínuo de visitação pública, visto que o povo lhe atribuiu diversas graças alcançadas de Deus.
JOSÉ GARCIA GONZALES NETO é professor de história da igreja no Instituto Teológico Paulo VI

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