Dolarização argentina - Delfim Netto
Dolarização argentina
Há uma conversa um tanto surrealista sobre as consequências da dolarização da economia argentina. Alguns brasileiros se preocupam com essa possibilidade, temendo seus efeitos em relação à nossa própria economia. Seria, a meu ver, um péssimo passo para a Argentina, mas sem maior influência no Brasil. As transações comerciais e financeiras entre os dois países já são todas feitas em dólar.
Desde a adoção do currency board, no início da presente década, a economia argentina pratica um sistema de moeda dupla, em que cada dólar vale um peso e as duas circulam livremente. O governo não pode emitir um peso se não tiver um dólar, o que significa que há uma relação estreita e completa entre as reservas totais da Argentina e os pesos que estão em circulação. Caso surja alguma dúvida sobre a taxa de câmbio, gerando clima de desconfiança capaz de provocar um ataque especulativo ou coisa parecida, as pessoas podem exercer o seu poder de comprar dólares. Simplesmente vão aos guichês, trocam seus pesos por dólar e a economia se dolariza. O peso desapareceria e todos passariam a usar dólares.
A partir daí surgiriam algumas dificuldades de natureza prática: periodicamente, o governo argentino teria que solicitar ao Fed, o Banco Central dos EUA, o fornecimento de dólares novos para substituir os dólares velhos, pois afinal as notas e moedas não são eternas, elas se gastam. Resta saber se o Fed estaria disposto a fornecer os dólares novos na medida necessária ou desejável.
Uma outra questão é que os déficits públicos terão que ser cobertos em dólares, ou seja, o governo argentino terá que permanentemente pedir empréstimo enquanto tiver déficit. Inexistindo, com a dolarização, o mecanismo interno de correção de preços, o déficit em conta corrente teria que ser neutralizado com a elevação das taxas de juros, aprofundando a recessão da economia. Quer dizer, o ajuste teria que ser feito reduzindo o nível de atividade - como aliás já é hoje - mas com muito maior intensidade. Em resumo, os resultados da dolarização seriam péssimos para os argentinos, com absoluta perda de controle sobre a condução de sua economia.
O sistema denominado currency board (a tradução sofrível seria conselho monetário ou autoridade monetária) adotado na Argentina já não foi uma boa escolha. É pior que a âncora cambial, da qual nos livramos há pouco, deixando como herança uma enorme dívida social que está sendo difícil de resgatar. Em ambos os casos, eles foram impostos em nome de uma falsa idéia de modernidade. O currency board não passa de uma invenção inglesa de meados do século passado para controlar suas colônias na África e na Ásia. Funcionou porque as colônias eram colônias...
Tenho procurado entender a economia argentina, mas fui pouco ao país e não me sinto autorizado a interpretar o sentimento do seu povo. A dolarização significa, contudo, a perda de um dos símbolos nacionais mais importantes, que é a moeda. O governo não terá independência para controlar sequer a taxa de juros, perdendo o comando da economia. Quem vai fazer a política na Argentina é o Fed.
Não creio que os argentinos queiram ver seu país se transformar em colônia.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado federal do PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara





