A mentira não resiste aos olhos fundos de uma criança faminta. Os olhos de uma criança faminta são um poço de tristeza absoluta num espaço que deveria ser um oásis de alegria. São mais trágicos que os ‘‘rostos de guerra’’ de Dali, desenhados com a feiúra do medo. Pior é a feiúra da morte. Criança com fome, aquela com a cara da Somália, é a morte em estado precoce. Não estamos falando de crianças de rua dos grandes centros. Criança carente deve ter proteção, em qualquer região. Mas em algumas, a situação é mais trágica. Em São Paulo, elas até são destemidas, correndo de um canto para outro nos semáforos, pedindo uma moeda, comendo restos de comida, vivendo da pequena malandragem que as cidades grandes produzem.
A criança faminta do Nordeste está se tornando um ícone multiplicado. Não dá para ser frio diante de seus olhos. Em São Paulo, até que se disfarça o egocentrismo. Sonegamos o trocado, quando temos a moedinha no bolso. Se temos o trocado, concluimos filosoficamente que a esmola não resolve. Administramos o complexo de culpa. Quando não temos a esmola, confortamo-nos com o perdão da sua falta. Nas regiões famintas do País, porém, o gelo se derrete. Ali, a carência não gera cara de pau. Os olhos fundos da criança entram como um ferro quente na cabeça, provocando redemoinhos de remorso. A mão estendida, sem nenhuma voz, é aríete contra as resistências.
A essa criança a mentira não resiste. Essa criança e outras que estão se prostituindo nas orlas marítimas do Nordeste e na beira dos rios do Norte e do Centro-Oeste fazem parte do bolo social, tão focado na atual campanha. Delas tampouco se importam as elites, para quem a paisagem de desolação que se observa em certas regiões não passa de ensaio colorido de TV, adequado ao relax das 20 horas. Os abastados jamais deixam o sofá para atirar salva-vidas aos náufragos. Sob essa óbvia constatação, flui o discurso eleitoreiro com sua cantilena retocada por efeitos gráficos. O tom é o mesmo. Quem já fez, quem faz.
Gente que fez pouco para evitar os imensos espaços calcinados do Nordeste. A chuva que sobra no litoral falta no sertão. Aí, a foice da seca ceifa crianças nascentes, multiplicando olhos profundos e saliências na cara das que sobrevivem. A mortalidade infantil no semi-árido aumentou cerca de 180% de um ano para cá. Mais para cima, os contrastes arrepiam.
Em Macapá, capital do Amapá, plantada às margens do maior rio do mundo, o Amazonas, um oceano de água é o maior cartão-postal. A perplexidade: falta água na beira do Amazonas. Os macapaenses não têm água tratada. Apenas 5% da cidade é saneada. Esse é o Brasil. Um país que, em época de eleição, coloca tapumes para cobrir a miséria.
Alguns Estados se modernizam e se fartam de obras, com o dinheiro das privatizações. Obras que adensam a logotipia eleitoreira. O Brasil do Real, também é verdade, conquistou a confiança do mundo. Por isso, as oposições exageram quando insistem em bater na tecla de que o País piorou. Nunca o País avançou tanto como nos últimos anos.
Mas o Brasil é isso: duas realidades, meia-verdade. O País de crianças de olhos fundos convive com o território de tecnologia de ponta. Nos Estados, a firulação corre solta. A campanha é um canto ficcional. Um canto tocado com muito dinheiro: uma campanha de governador-candidato num Estado nordestino não sai por menos de R$ 12 milhões. Em São Paulo, a campanha para o governo, por candidato, não sai por menos de R$ 50 milhões. Uma campanha paulista para deputado federal está orçada em R$ 1,5 milhão. Há quem gaste até R$ 5 milhões.
Os mais ricos têm mais chances de ‘‘servir ao povo’’. Uma casinha simples na Pintolândia, em Boa Vista, Roraima, sai por menos de R$ 1 mil. A alimentação de 100 crianças de olhos fundos consome, em quatro anos, menos que um deputado gasta em 45 dias para se eleger. São o País, o povo e os costumes que temos.
- GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, professor titular da USP, é presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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