O ano de 1998 não será lembrado apenas como o da provável reeleição do FHC e o da disputa da última Copa do Mundo de Futebol entre seleções do século 20, a ser realizada na França. É que, durante o período em que os atletas brasileiros estiverem treinando para enfrentar os adversários, centenas de cientistas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e do Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA) também estarão trabalhando duro para pôr em órbita o primeiro satélite 100% brasileiro. A coincidência das datas - meados do ano - não poderia ser melhor. Ela servirá, no mínimo, para mostrar a distância existente entre nosso exuberante futebol, de primeiríssimo mundo, apesar da eterna desorganização de seus dirigentes, e a nossa incipiente tecnologia, quase sempre relegada por motivos vários e injustamente a segundo plano.
Apesar disso, no entanto, com um pouco de sorte (a mesma sorte que nossa seleção terá de ter para trazer o pentacampeonato), os brasileiros poderão assistir - com justificado orgulho - ao lançamento do primeiro satélite brasileiro, feito de uma base brasileira - Alcântara, no Maranhão - e impulsionado por um veículo lançador de satélites (VLS) totalmente projetado e fabricado no Brasil. Se tudo correr bem - e deveremos torcer para que isso aconteça do mesmo modo que estaremos torcendo pelo sucesso da nossa seleção -, o Brasil poderá ter dado um salto qualitativo em direção à maioridade teccológica. Desse modo, por volta de julho, talvez o Brasil possa comemorar dois títulos: o de pentacampeão mundial de futebol e o de ser um dos poucos países do mundo a ter um satélite orbitando a Terra.
Se isso acontecer, deixaremos definitivamente de ser, ainda que tardiamente, um País com um futebol de reis, mas com uma tecnologia de anões.
O Programa Espacial Brasileiro teve início em 1958, portanto, há exatos quarenta anos. Cerca de uma década atrasado em relação aos programas dos Estados Unidos e da ex-União Soviética. Durante quatro décadas teve de enfrentar todo o tipo de adversidades internas (falta de recursos) e externas (pressões de países detentores dessa tecnologia para não transferi-la), mas, em 1978, deu um salto com a definição clara das atribuições que cabiam a ministérios, órgãos e entidades de pesquisa envolvidos no programa.
Em meados de novembro passado, foi feita a primeira tentativa, mas, infelizmente, o veículo lançador de satélites (VLS) manteve-se em funcionamento durante 59 segundos, uma eternidade em termos de foquetes, mas ainda assim insuficientes para colocar nosso primeiro satélite na órbita correta. O insucesso dessa tentativa, contudo, não deve, nem pode, desanimar nossa comunidade científica. Não podemos nos esquecer de que a França, país líder em tecnologia de satélites na Comunidade Européia, também fracassou, tempos atrás, ao tentar lançar um satélite europeu da base de Kourou, na vizinha Guiana Francesa.
Quem não se lembra de uma das primeiras modinhas de sucesso de Juca Chaves, nosso menestrel maldito, no início da década de 60, na qual ele compara a trajetória de sua vida pessoal ao programa espacial americano? ‘‘Qual um foguete americano eu sou um fracasso, tento subir porém só desço neste mundo’’, glosava-se o próprio autor.
E era verdade. Naquela época, o programa espacial soviético estava muito mais adiantado do que o americano. A imagem de Gagarin passeando no espaço sorrindo tomara conta do mundo. Imaginemos se, por qualquer motivo, eles (os americanos) tivessem se abatido com os sucessivos fracassos. Obviamente, não teriam pouco tempo depois, exatamente em julho de 1969, conseguido colocar não apenas um, mas dois homens andando sobre o solo lunar.
Por isso, o eventual insucesso de novembro com o foguete brasileiro não deve ser motivo para que nossa comunidade científica esmoreça. Perseverar é a palavra. Até atingirmos nosso objetivo de entrar para o fechadíssimo ‘‘clube da tecnologia espacial’’, formado por Estados Unidos, Rússia, Ucrânia, Comunidade Européia (liderada pela França), Índia, Japão, China, Canadá e Israel.
Atingida a meta, o Brasil poderá enfim, candidatar-se nas mesmas condições dos demais sócios do ‘‘clube espacial’’ para sediar um campeonato mundial de tecnologias (de todas elas) e não apenas da espacial.

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