Imaginem a seguinte situação: a Otan decide bombardear Pequim por causa das atrocidades cometidas pelo governo chinês contra o povo tibetano desde a década de 50. Ou esta: a ilha de Java é atacada por caças dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha que, enfim, se indignaram com o extermínio sistemático dos resistentes do Timor Leste, uma pequena ilha subjugada pela Indonésia onde se fala português.
Situações impensáveis, não? Num planeta dominado e controlado pelas potências ocidentais, não há regras predeterminadas. Ou melhor, elas até existem, mas são obscuras e decididas nos bastidores do xadrez político internacional, onde expressões como ‘‘ajuda humanitária’’ são cunhadas para justificar ataques e bombardeios a países resistentes à ordem ditada pelo Ocidente. E atitudes do gênero são tomadas apenas quando os aliados, sem ferir seus interesses e suscetibilidades, chegam a um acordo sobre quem é o inimigo comum.
Há anos, os Estados Unidos e as potências européias querem defenestrar Slobodan Milosevic, o sanguinário líder iugoslavo. Afinal, Milosevic, com seu sonho de construir a Grande Sérvia depois do esfacelamento da Iugoslávia, trouxe de volta à Europa o fantasma da guerra, e não passa de mais um filhote de Hitler. Além de, a exemplo de outros arquiinimigos das grandes potências ocidentais, como Saddam Hussein e Fidel Castro, não se submeter aos desígnios dos donos do mundo.
Os massacres de croatas, sérvios e bósnios, fossem católicos, ortodoxos ou muçulmanos, foram um grande crime contra a humanidade, mas a comunidade internacional demorou a agir e, a rigor, nem tomou partido nessa guerra absurda que entrou na história com o nome de faxina étnica. Interesses russos, alemães e gregos, principalmente, estavam em jogo, e assim a Otan cruzou os braços durante anos diante das atrocidades cometidas tanto por sérvios como pelos croatas, que aliás falam a mesma língua.
A mesma Otan e outros organismos internacionais controlados pelo Ocidente, como a ONU e a União Européia, também trataram com desleixo episódios como o massacre de milhões de hutus e tutsis no Ruanda e no Burundi. E mesmo o genocídio dos albaneses do Kosovo vem se arrastando há quase uma década.
Mas, agora, as nações do Ocidente parecem estar mesmo dispostas a acabar de vez com Milosevic e a intervenção da Otan vem num momento em que a Rússia, eterna aliada dos sérvios, virou refém do FMI, e a Grécia, outra aliada, perde espaço nas discussões com os demais países da Otan. Os alemães, por sua vez, não nutrem a menor simpatia pelos sérvios, que assim ficaram isolados e vulneráveis. Azar da população civil, como sempre a grande vítima da insensatez humana.
Apesar de Milosevic, fica difícil concordar com os bombardeios a Belgrado ou engolir a versão oficial de que os ataques à Iugoslávia são apenas consequência da compaixão da Otan pelos albaneses separatistas do Kosovo.
Mas por que então não se exercita a mesma piedade em relação a tibetanos, timorenses, palestinos, corsos, bascos, hutus, tutsis e tantos outros povos mundo afora?

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