Dois mundos muçulmanos
Mansour Challita
Até recentemente, os muçulmanos formavam, com poucas exceções, um mundo só, unido, coerente, baseado na interpretação genuína do Alcorão. Hoje, basta olhar em volta de si (nos jornais, na TV) para se dar conta de que há já dois mundos muçulmanos: o mundo tradicional, baseado na mesma interpretação literal do texto sagrado, e o mundo liberal - que interpreta livremente a lei.
Essa diversidade é melhor concretizada nos vestimentos femininos: em países como Afeganistão, Arábia Saudita, Iêmen, Argélia, a mulher vestida é transformada em coluna preta, da qual pode-se ver, no máximo, os olhos.
Por contraste, em países muçulmanos liberais como Turquia, Kuwait, Marrocos, a mulher se veste como deseja, dentro dos costumes morais, respeitados em todo o Oriente. Simbolicamente, a revista ‘‘O Árabe’’ editada no Kuwait pelo próprio Estado (e que talvez seja a melhor revista de língua árabe), apresenta na capa sempre uma mulher bonita, sem nenhum traço de véu ou chador.
Em assuntos mais fundamentais, é ainda a condição da mulher que melhor simboliza as diferenças. É a mulher igual ao homem? O Alcorão diz que o homem e a mulher são iguais, mas o homem a ultrapassa de um degrau. Qual a extensão desse degrau? O próprio texto sagrado determina que a mulher herda a metade do que herda um homem e que, nos tribunais, o testemunho de um homem vale o de duas mulheres.
Tal é o texto da lei, e é aplicado rigorosamente nos países tradicionais; e além disso, tratam a mulher como se não tivesse vontade própria e deve ser inteiramente submissa a seu pai ou a seu marido.
Nos países liberais, até a lei deixa de ser aplicada; pois consideram que as lei antigas devem evoluir e acompanhar a vida, que está sempre evoluindo. Pois o que estava certo no século VI pode virar errado no século XX. A mulher passa a ser tratada em igualdade com o homem, mesmo nas leis. Há naturalmente diferenças de um país para outro, tanto nos países tradicionais como nos países liberais.
Eis os dez pontos mais importantes em volta dos quais se opõem os países liberais aos países tradicionalistas. Podemos procurar a aplicação desses princípios em qualquer país e determinar, em consequência, seu lugar no mundo: Pode a mulher mostrar o corpo? Sair à rua sem véu? Usar roupas ocidentais? Consumir bebidas alcoólicas? Dançar? Ir ao cinema? Ver televisão? Trabalhar fora? Frequentar escolas mistas? Viajar sozinha?
Em certos países tradicionalistas como a Arábia Saudita, o Afeganistão, cinema, música, álcool, jogos, diversões mistas são expressamente proibidas às mulheres.
Eis também alguns acontecimentos isolados que são um retrato bem significativo de cada país: a Turquia, o mais avançado dos países liberais, proibiu no início deste ano o Partido Islâmico que pregava a volta à interpretação severa do Alcorão. Além disso, o Governo promoveu reformas no sistema educacional para acabar com o ensino religioso e para acabar com o uso de roupas islâmicas nas escolas e no trabalho.
O presidente do Irã, Mohamed Katami, enviou saudações natalinas ao Papa João Paulo II em dezembro último, querendo promover uma abertura entre as autoridades religiosas cristãs e muçulmanas. Assim mesmo, a pena de morte pode ser aplicada no Irã a quem não professa claramente a religião oficial (o Islã).
No Afeganistão, a lei dos Talibás reaviva a prática do apedrejamento. Aplicações dessa pena não eram vistas desde os anos 40. No Egito, antigamente o país mais progressista, decretou-se em abril do ano passado que as normas do Alcorão serão agora seguidas com total rigidez. No Sudão, os intelectuais estão abandonando Marx e voltando ao Islã.
Para medir a importância mundial dos rumos que serão escolhidos pela maioria dos países muçulmanos, devemos nos lembrar que os muçulmanos representam um terço da população mundial - ou seja, 2 bilhões de pessoas. Controlam assim, 50 países dos quase 200 países que constituem a comunidade mundial. Os muçulmanos estão presentes na África, no Oriente Médio, na Ásia. E, o que é mais importante, o Islã está crescendo até em países tradicionalmente cristãos como os Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha, a Alemanha.
Em vista da importância crescente do Islã no mundo, torna-se essencial acompanhar os acontecimentos para verificar qual dos dois mundos islâmicos vai prevalecer. O próprio papel do Islã no mundo dependerá desse desfecho. Se predominarem os países tradicionalistas, o Islã ficará isolado no mundo e só exercerá influência nos seus próprios territórios. Mas se predominarem os países liberais, o Islã se tornará uma força mundial a competir em pé de igualdade com o cristianismo, o judaísmo e as religiões orientais na dominação do mundo.
- MANSOUR CHALLITA é jornalista e escritor, é presidente da Associação Cultural Internacional Gibran

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