Dois modos de fazer política e um lago aterrado - Telma Gimenez
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de setembro de 1998
Telma Gimenez 
Os destinos do aterro do Lago Igapó 2 finalmente chegam à imprensa com destaque e nos fazem refletir sobre duas formas alternativas de se fazer política. Alguns concebem política apenas como representação. Neste caso, líderes escolhidos pelo voto popular que se intitulam conhecedores dos anseios da população, criam leis e decretos e os colocam em execução a despeito de posições contrárias às que tomaram em nome de quem os elegeu.
Política, entendida como processo de tomada de decisões é, neste cenário, tida como a arte de vencer. Vence a maioria, a despeito de opiniões contrárias. Na busca pela vitória buscam-se argumentos que enfraquecem o ponto de vista contrário, ignora-se o argumento do qual não partilhamos, e almeja-se o debate. No debate procuramos confirmar crenças, ouvimos para encontrar falhas e contra-argumentamos, defendemos nosso ponto de vista. E votamos. Este modelo de política se assemelha a um mercado: como consumidores em busca do melhor produto e preço ouvimos candidatos que pensam como nós, em quem acreditamos que fará algo por nós. É fácil ver como esse tipo de política encoraja o individualismo, embora travestido de desejo da maioria.
Um modo alternativo de política encoraja o envolvimento da população no processo de tomada de decisão. A imagem não é mais a do mercado, mas a do fórum, onde as decisões são deliberadas. A deliberação, ao contrário do debate, envolve preocupação com pontos de vista alternativos aos nossos, requer a suspensão temporária de crenças e tem por objetivo encontrar pontos comuns, que formam a base de uma política consistente. Quando deliberamos, nos mostramos abertos à reavaliação de nossos pressupostos, ficamos dispostos a examinar soluções melhores e nossas decisões resultam de um processo de reflexão coletiva que considera aquilo que nos é mais caro, mais valioso em termos de comunidade.
No momento em que diversos segmentos da comunidade londrinense se manifestam a respeito da doação do aterro do Lago Igapó 2, esses dois modos de se fazer política podem nos ser úteis. A decisão da Câmara Municipal e de resto toda a política local (com exceções, naturalmente) parecem embasadas no conceito de mercado. A própria publicidade que domina a campanha eleitoral coloca políticos como vendedores e eleitores como compradores.
No entanto, podemos resistir a esse modo de fazer política, e cobrarmos, ao invés disso, uma política que nos inclua no processo de tomada de decisões. Não queremos apenas que nossos representantes julguem o que acham melhor para nós. Queremos ouvir todos os pontos de vistas alternativos sobre o uso do aterro do Igapó 2.
A Folha já revelou algumas dessas posições: a prefeitura pensa em empreendimento de lazer (semelhante ao Estação Plaza Show?); os moradores da região pensam numa área revitalizada, com pistas para caminhadas, decks para pescaria etc; o jornalista Walmor Maccarini, em artigo, disse que é a favor de desaterrar o lago e certamente deve contar com adeptos da idéia; alguns ambientalistas apóiam a doação do aterro; e pais preocupados com o futuro da cidade onde seus filhos irão morar querem a preservação da área.
Parece claro que qualquer iniciativa de concretização da doação neste momento seria prematura e contrária à vontade de uma grande parcela da população e de eleitores londrinenses. A solução, me parece, está no segundo modo de fazer política, isto é, em fóruns de deliberação pública onde esses pontos de vista alternativos seriam pesados e avaliados em seus prós e contras, para que as decisões fossem mais maduras e reflexos de um diálogo onde o objetivo não fosse derrotar o outro, mas ouvir seus argumentos.
Através da deliberação poderíamos chegar à determinação do que é realmente valioso para nós, que tipo de cidade queremos para nós e para nossos filhos. Mais do que isso, estaríamos praticando um modo de fazer política que visa a constituição de um público, enquanto grupo de pessoas de interesses interconectados que têm por objetivo o bem comum. Estaríamos incentivando e exercendo cidadania.
- TELMA GIMENEZ, professora da Universidade Estadual de Londrina


