As chamadas doenças infecciosas negligenciadas - doença de Chagas, leishmaniose, esquistossomose, leptospirose e malária - há muito preocupam médicos e cientistas. Elas atacam em sua maioria as populações mais carentes e matam milhares de pessoas em todo o mundo. A malária, por exemplo, mata 2,3 milhões de pessoas todos os anos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), e atrapalha o desenvolvimento da região Norte do Brasil.
Para solucionar o problema, foi criado o projeto Instituto Nacional de Biotecnologia Estrutural e Química Medicinal em Doenças Infecciosas (INBEQMeDI), com a participação da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Universidade de São Paulo, Universidade Federal de Viçosa e Universidade Federal de São Carlos.
A FOLHA conversou com o professor Jorge Iulek, do departamento de Química da UEPG, que ressaltou a importância da participação de uma instituição paranaense no estudo.
''É uma pesquisa de alto nível, de grande importância social e econômica, mas da qual deve-se reconhecer as dificuldades inerentes. A indústria farmacêutica costuma dizer que o desenvolvimento de novas drogas compreende grandes investimentos, grandes riscos, mas, se bem sucedida, grandes ganhos. Do ponto de vista acadêmico, enfatizamos sobretudo o benefício social e humano.''

Como vai funcionar o projeto?
Cada instituição participante tem suas especialidades, então haverá uma divisão dos alvos para desenvolvimento de novas drogas, bem como das diversas tarefas compreendidas numa empreitada dessa natureza. A ideia é ir ampliando com o tempo o que pode ser realizado em cada instituição, graças a aquisição de equipamentos.

Já há previsão de quando devem apresentar algum resultado?
O processo de desenvolvimento de uma nova droga é extremamente complexo e demorado; depende de muitos ensaios e estudos antes que possa ser, finalmente, caracterizada como segura e eficiente. Muitos anos são gastos desde os estudos iniciais.

Na UEPG serão pesquisadas todas as doenças?
Nossa experiência está à disposição sempre quando for necessária a qualquer um dos vários alvos pesquisados. Neste momento, iniciamos um trabalho com uma proteína de salmonela e outro com uma proteína de Typanosoma cruzi, causador da doença de Chagas.

Qual a sua expectativa em relação a essa pesquisa?
A UEPG participará de um grupo de renomados cientistas em uma área de grande importância farmacêutica. Realizaremos pesquisa de ponta nessa área, inclusive com envolvimento de nossos alunos de doutorado, mestrado e iniciação científica, contribuindo sobremaneira para a formação deles. Recursos de financiamento do projeto serão utilizados para aquisição de equipamentos sofisticados, o que em muito ampliará a capacidade científica da instituição. Naturalmente, esperamos também contribuir de forma decisiva no avanço do conhecimento.

O senhor acha que falta interesse dos grandes laboratórios em fazer esse tipo de pesquisa?
Trabalharemos sobretudo com as chamadas doenças negligenciadas, como reconhece a própria OMS. São doenças típicas dos países menos desenvolvidos, da população mais carente, para as quais o retorno em termos de investimento é menor, claro. Assim, dentro das grandes indústrias, outras doenças, como por exemplo as degenerativas, costumam ter maior atenção, dada a perspectiva mais clara de retorno dos enormes investimentos financeiros realizados. Deve-se citar, todavia, que há, mesmo da iniciativa privada (ou grandes laboratórios), várias iniciativas, muito louváveis, no sentido de se fomentar a pesquisa nessa área (doenças negligenciadas) também, muitas vezes em associação com a academia.

O senhor acha que se conseguirá a cura completa para essas doenças?
É o que todos desejamos obviamente. Neste ponto, é necessário frisar-se que para muitos quadros já existem muitas alternativas de tratamento, que devem ser muito bem consideradas. O que sempre desejamos é oferecer alternativas cada vez melhores, o que poderia ser definido como alternativas mais eficientes, mais amplas e com menos efeitos colaterais.

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