DOENÇAS DO CORAÇÃO - Mortes ocorrem por falta de informação
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
A experiência no projeto Tempo é Vida, desenvolvido há dez anos na Universidade Estadual de Londrina (UEL), levou o médico londrinense Manoel Canesin a receber convite do Ministério da Saúde para ser consultor técnico da Coordenação Geral de Urgência e Emergência, onde vai gerenciar a parte de emergência cardiovascular de toda a rede do Sistema Único de Saúde (SUS).
Em entrevista à FOLHA, o cardiologista afirmou que, em um primeiro momento, o objetivo é capacitar cerca de 20 mil médicos e profissionais da saúde para depois levar o treinamento à população. Segundo ele, a falta de informação é a principal causa para o grande número de doenças cardiovasculares, responsáveis por uma a cada três mortes no País. ''Não adianta nada ter um médico no posto de saúde 24 horas se a população não sabe se cuidar''.
Qual a importância do trabalho que o senhor vai desenvolver no Ministério da Saúde?
A cultura brasileira na área de saúde ainda é muito básica. Dos anos 60 para cá mudou a curva de mortalidade no Brasil. Antes eram as doenças infecciosas que matavam mais, agora são as doenças cardiovasculares. Pouco fizemos para tratar essa doença, com medidas como treinamento, educação da população, orientação do médico, ou seja, toda a cadeia.
O serviço público de saúde, com relação ao setor de urgência e emergência, está em um bom nível ou pode melhorar ainda mais?
Melhoramos bastante nos últimos quatro anos, depois da implantação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que atua em mais de 120 cidades. Isso proporciona uma segurança muito maior do que existia antes. Agora temos que mudar em termos de treinamento, para que a gente deixe de focar somente traumas, doenças infecciosas, e passe a focar na principal causa de mortalidade hoje no Brasil, que é a doença cardiovascular.
Muitas pessoas ainda criticam uma certa demora do Samu para fazer o atendimento. Ao que está relacionado isso, na sua opinião?
A principal causa de atrasos ou dificuldades é a falta de orientação da população. São muitos casos em que não é preciso ligar para o Samu. Se você tem uma dor no peito, com pontadas, que já dura cerca de 24 horas, não precisa do Samu. O indivíduo pode ir andando até uma emergência primária e ser atendido lá. A população tem que saber diferenciar quais são as competências do Samu, e isso é educação.
É possível fazer este trabalho de conscientização sem começar pela base, envolvendo as escolas?
A gente vai começar treinando primeiro a rede do Samu, com expectativa de 20 mil profissionais nos próximos dois anos, e a partir daí vai para a população, com projeto de introduzir no currículo escolar o ensino de urgência e emergência para alunos de 7 e 8 séries. Um aluno de 12, 13 anos, já pode aprender como faz uma ressucitação, identificar sinais de dor no peito, a ocorrência de um derrame, como tratar quem está sofrendo um derrame. Se a criança aprender, vai para casa e ensina o pai. Vira uma cadeia multiplicadora natural.
A população brasileira desconhece o risco das doenças cardiovasculares?
Muito. O nível de informação hoje é muito maior, mas não para a doença cardiovascular. Queremos atingir o mesmo nível de informação das doenças infecciosas, para diminuir a mortalidade, internação e o custo para o Estado. É preciso colocar para a população que check-ups periódicos são necessários. Não adianta nada ter um médico no posto de saúde 24 horas se a população não sabe se cuidar. O cidadão só vai procurar o médico quando está infartando. Não vai procurar o médico para medir a pressão, para ver o nível de colesterol, diabetes, pelo menos uma vez por ano.
É um trabalho de mudança de cultura mesmo...
A gente precisa tirar da cabeça das pessoas a idéia de que é bom morrer subitamente. O bom é que as pessoas não morram, principalmente no auge da vida, com 50, 60 anos, para poder aproveitar. Hoje a partir dos 30 anos o risco já é grande, por isso que esta cultura tem que começar a ser criada na infância. Não adianta só ensinar a lavar o rosto, escovar os dentes. Tem que saber o que é pressão alta, o que pode causar um derrame. Cerca de 30% da população têm pressão alta e nem sabe. Este conhecimento tem que chegar à população, com projetos semelhantes ao que foi desenvolvido aqui em Londrina. Se conseguirmos, nos próximos quatro anos, treinar 4% da população, já é uma taxa muito boa. A chance de você ter uma dor no peito e um leigo treinado estar perto de você é muito maior.


