A cada ano, conforme a Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de 160 milhões de pessoas são vítimas de doenças no trabalho. O que mais preocupa a entidade são os acidentes com maquinários, Lesões por Esforços Repetitivos (LER) e Distúrbio Osteomolecular Relacionado ao Trabalho (DORT). No entanto, essas não são as únicas razões para o afastamento dos trabalhadores.
As doenças mentais começam a ganhar lugar no ranking das enfermidades mais recorrentes. Depressão, estresse, síndrome do pânico, esquizofrenia, alcoolismo estão nessa lista.
Dados do Instituto Nacional de Previdência Social (INSS) revelam que os transtornos mentais ocupam a terceira colocação entre as causas de concessão de benefício previdenciário, como auxílio-doença, afastamento do trabalho por mais de 15 dias e aposentadorias por invalidez.
O problema é tão grave que recentemente foi instituído o Dia Nacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho, celebrado no dia 28 de abril, em todo o País.
"(O transtorno mental) É uma doença que está mais escondida e com uma série de tabus que a envolvem, não é visível como a sequela de um acidente de trabalho, por exemplo", destaca Renée Araújo Machado, procuradora do Ministério Público do Trabalho do Paraná (MPT-PR).

Como está o panorama dos casos de doença mental no ambiente de trabalho?
Desde que ocorreu uma evolução do trabalho contemporâneo em todo o Brasil, incluindo o Paraná, com a chegada das montadoras, por exemplo, podemos observar uma alteração nas ocupações e, com elas, novos problemas. A doença mental vem crescendo, e verificamos isso no número de afastamentos feitos pelo INSS. É o tipo de doença que mais cresce, e isso acontece por vários motivos. Acidentes de trabalho ou outras doenças podem acabar desembocando numa doença mental, como uma depressão, o que é de difícil diagnóstico. É uma doença que está mais escondida e com uma série de tabus que a envolvem, não é visível como a sequela de um acidente de trabalho, por exemplo. Num acidente a pessoa amputa o dedo da mão e o acidente está justificado, a dor está justificada. Uma Lesão por Esforço Repetitivo (LER) também é mais fácil de se aceitar. No caso da depressão vão dizer que é preguiça, corpo mole.

E quais as consequências do tratamento inadequado para pacientes com esse tipo de doença?
Tudo isso tem início por causa da pressão. A depressão pode evoluir para algo pior, chegar a se transformar em síndrome do pânico, por exemplo, caso o problema não seja diagnosticado a tempo.
As metas estão presentes em 90% das empresas e têm que ser atingidas. Seja nas atividades de telemarketing, bancos, empresas de transportes e empresas de entregas (delivery). Se a pessoa não atinge o resultado fica recebendo mensagens no e-mail, no telefone. Ela é assediada. A partir do momento que eu ligo o meu computador aqui no MPT, eles sabem lá em Brasília. Então todo mundo está sendo supervisionado o tempo todo. Só que nas empresas elas têm que apresentar resultado e são monitoradas e cobradas por isso.

Existem funções específicas que podem correr um risco maior de ter doenças mentais?
Acho que pode acontecer em qualquer setor, mas hoje em dia existem certas atividades que são bem emblemáticas em relação a este problema. Bancários, operadores de telemarketing, motoboys, motoristas de ônibus, estão entre os principais. E muitas vezes a pressão fica sobre as metas e de repente a empresa muda os números e não avisa os funcionários. Muitas vezes eles vêm até o MPT-PR falar sobre o assunto e choram, se desesperam. Existe aquele ambiente de trabalho em que há pressão e até mesmo o assédio é agressivo, mas tem aquele que fica subliminar, que é invisível, mas que também causa danos ao empregado.

Para o INSS é mais difícil diagnosticar o problema mental para conceder um afastamento?
O diagnóstico da doença mental é muito mais difícil de ser percebido. A pessoa tem que estar no limite e quase se matando dentro do trabalho, deixando aquele recado para que realmente tomem alguma providência. A aceitação também é muito mais complicada por parte dos colegas, no retorno ao trabalho. A pessoa fica estigmatizada por fazer corpo mole.

A relação com os colegas de trabalho pode agravar um quadro de depressão e de outras doenças mentais?
Não existe preparo para recepcionar estas pessoas nos seus retornos, tanto por parte dos chefes quanto dos colegas. Por exemplo, se existe um trabalho em grupo e uma meta a ser atingida. Caso o objetivo não seja alcançado, aquele que foi afastado e está voltando é o culpado porque atrapalhou todos os demais. E isto só tende a piorar a situação. É dessa maneira que muitos funcionários pensam, infelizmente.

As empresas estão tendo a percepção de que casos de doenças mentais podem ser frequentes?
Até existe esta preocupação, mais ainda é muito pouca. Por isso nós do MPT-PR fazemos questão de discutir o assunto porque o tabu é da sociedade.
Compare esta situação. Quando uma pessoa X tem algo mais grave, como um câncer, por exemplo, fica abatida. Se ela sai para passear no shopping, se arruma, e alguém a encontra, a declaração é a seguinte: "Nossa, encontrei com a pessoa X no shopping e ela estava muito bem". Se outra pessoa, com depressão, é encontrada no shopping, toda arrumada, e alguém a encontra, a declaração é outra: "Pois é, dizem que está com depressão, mas estava passeando lá no shopping". É isto que acontece. A sociedade tem uma ideia torta do problema, se torna até mesmo um preconceito, e os empregadores acabam muitas vezes pensando da mesma forma.

As pessoas demoram até perceber que estão com uma doença mental? É difícil de aceitar o problema?
Em muitos casos demora, sim. Em outros é difícil de aceitar e isto pode acabar piorando a situação. Mas não tem como generalizar porque cada um é cada um. Num mesmo local de trabalho, por exemplo, diferentes pessoas podem ter reações diversas. Se um chefe chega agredindo e assediando seus funcionários, um trabalhador vai dar risada, outro vai sair chorando e um terceiro vai dar um tiro na cabeça. Então a maneira de reagir vai depender muito, é diferente. O que pode aborrecer uma pessoa, para outra vai passar desapercebido.

O assédio no ambiente de trabalho também influencia no aparecimento de problemas relacionados a doenças mentais?
O assédio contamina o ambiente de trabalho. Temos a ideia errônea de que isso é normal, que é assim que funciona. Existem procedimentos aqui na procuradoria em que uma mesma pessoa que mudou de empresa foi assediar em outra. Tem o caso envolvendo uma indústria de bebida em que funcionários foram assediados, e passaram a ser assediadores em outras empresas. É absurdo, porque parece que aquele tipo de comportamento funciona. Se uma pessoa foi bastante assediada, pressionada, vai conseguir vender mais, e o resultado será melhor. Mas ninguém questiona o impacto que esta atitude está causando no empregado.

E o MPT-PR também percebe casos mais graves?
Os números do INSS são muito claros. E foi por isso que surgiu a ideia de se discutir o problema, pelo crescente número de afastamentos causados por problemas mentais. Chega a ser a terceira causa de afastamentos por 15 dias e aposentadoria por invalidez. Os casos mais graves são aqueles em que um trabalhador sofre assédio em virtude de uma outra doença. Quando o problema é físico e a pessoa está voltando de licença, ela começa a ser assediada porque não consegue atingir uma meta. Nestes casos acabam desenvolvendo uma depressão, por exemplo.

O número de pessoas que denunciam o problema poderia ser maior?
Com certeza. Muitas pessoas deixam de denunciar porque o assédio é vergonhoso, difícil de provar. Existem vezes em que mantemos em sigilo, mas em outras que não dá para fazer isso porque precisamos investigar mais a fundo. E daí temos que conversar com a pessoa, com o denunciante para ver se ele concorda em seguir em frente com o processo.

Existem também agravantes, como casos em que as pessoas que sofreram assédio ou estão com depressão e acabam procurando drogas e álcool para conseguir suportar a pressão no trabalho?
Sim, existem, e isso é extremamente preocupante. Muitas vezes é a única maneira de a pessoa suportar a pressão. As estatísticas do INSS mostram que está crescendo o uso de álcool e drogas por trabalhadores e, consequentemente, o afastamento destas pessoas. Por isso tentamos sempre falar sobre o assunto para disseminar a informação. Os problemas mentais desenvolvidos dentro do ambiente de trabalho são mais comuns do que muita gente imagina. Temos que começar a abrir os olhos das pessoas a respeito da questão.

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