DOENÇA DIGITAL - Jovens são alvo do tecnoestresse
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Experimente ficar três dias sem usar computador e fazer ou receber ligações no celular. Você conseguiria? Se a resposta for negativa, você pode estar sofrendo de tecnoestresse, nova modalidade de estresse provocada pela dependência cada vez maior de tecnologia.
Em entrevista à FOLHA, a psicóloga Myrna Chagas Coelho afirma que os jovens são os mais atingidos pelo tecnoestresse, por terem nascidos dentro de uma cultura tecnológica. Segundo ela, os pais devem estabelecer limites para evitar dependência ainda maior no futuro. ''Eles não experimentaram uma vida sem isso, então tendem a ser adultos ainda mais dependentes se essa fase da vida não for bem administrada''.
O que define o tecnoestresse?
Em primeiro lugar, a gente precisa aprender o que é estresse, definido por reações físicas e psicológicas que a pessoa apresenta diante de situações que excedem a capacidade dela de adaptação. O tecnoestresse está relacionado à exposição das pessoas ao excesso de tecnologia. Os recursos tecnológicos mudam constantemente e fazem com que as pessoas tenham que se adaptar a eles com uma velocidade muito rápida.
Quais os sintomas?
A pessoa pode apresentar sintomas de estresse como dores musculares, cefaléia, irritabilidade, dificuldade de concentração, insônia, entre outros. Mas não é fácil identificar se eles estão sendo gerados pela tecnologia ou por outro fator, porque ela também é exposta à falta de tempo, trânsito complicado, ameaças, ambiente competitivo. Por isso que é preciso ter cuidado ao usar esses termos da moda.
Dê um exemplo de ocorrência do tecnoestresse...
A pessoa sai de casa sem o celular e já fica preocupada para saber se alguém ligou, não consegue retornar ligações e isso a coloca em um estado de desequilíbro, tensão. O problema não é a tecnologia em si, mas o fato de muitas coisas que a pessoa faz estarem ligadas à tecnologia. Cria uma situação estressora se ela fica três dias sem isso, porque perde arquivos e outras informações úteis na vida dela.
Também está ligado à dependência?
A pessoa não consegue ficar sem. Ela vai viajar de férias e não desliga o celular, vai em uma festa e fica o tempo todo vendo se alguém ligou. Não dá para si mesmo momentos de privacidade e lazer, fica ligada e conectada o tempo inteiro. A gente precisa desses momentos para recarregar as energias.
Tem uma faixa etária que é mais afetada por isso?
Esta geração de adolescentes está sendo muito afetada porque já foi criada nesta cultura tecnológica. Eles não experimentaram uma vida sem isso, então tendem a ser adultos ainda mais dependentes se essa fase da vida não for bem administrada.
E qual o papel dos pais neste caso?
Colocar limites no uso, porque o tecnoestresse está diretamente ligado ao consumo. A criança acaba de ganhar um celular, sai um mais avançado e ela já quer outro. Cabe aos pais mostrar aos filhos que as coisas não são tão fáceis, para que eles desenvolvam maturidade, responsabilidade, e saibam lidar com o valor das coisas.
Estabelecer um tempo de uso pode ser uma saída?
O tempo em frente ao computador parece que corre diferente. O pai sai de manhã de casa, vai trabalhar, faz várias coisas e quando volta para casa o filho está na mesma posição diante do computador. Os pais ficam assustados com isso, mas o filho, entretido, não viu a hora passar da mesma maneira. Isso é prejudicial para os jovens. Qual é o castigo que os pais mais usam para punir o comportamento dos filhos? Tiram o crédito do celular, proíbem o uso do computador por um tempo. Isso é altamente punitivo para o adolescente, o que mostra que ele está muito dependente da tecnologia.


