Doação e adoção: atos de amor
Cada vez menos ouvimos falar em doar. É mais comum ouvirmos: Isso é meu, eu comprei com o meu dinheiro; por que eu o daria para outrem?. O ato de dar algo para alguém se tornou motivo para ridicularizar a pessoa do doador: Fulano é um trouxa, fica com peninha dos outros e acaba dando suas coisas para esses malandros que não querem saber de trabalho e só sabem pedir e mendigar.
E quando se trata de filhos a situação é mais séria. Mas, afinal de contas, que papo é esse? Por que eu iria doar meu filho? À primeira vista, a idéia parece absurda e na maioria das vezes o assunto acaba por aí e não se fala mais nisso. Porém, precisamos nos perguntar: de que precisa uma criança quando nasce?
Segundo sociólogos, psicólogos e teólogos, o ser humano, desde o seu nascimento, necessita de alimento para a sua alma e para o seu corpo. A alma se alimenta de amor, carinho, atenção, e respeito à sua individualidade, como também carece da fé em Deus.
O corpo, por sua vez, precisa ser, continuamente, alimentado com comida e bebida que tenham certo grau de nutrientes. Precisa ser vestido e calçado, e ainda requer cuidados médicos, sem falar nas necessidades de estudo, lazer e trabalho para sua realização pessoal. Outra pergunta, então, nos vem a mente: será que todos os casais, quando sentam para planejar a vinda dos herdeiros, analisam se vão poder suprir todas estas necessidades? E se perguntam: Será que vamos ter tempo e dinheiro, para dar ao nosso filho?
Infelizmente as estatísticas mostram que a maioria das famílias começam sem nenhum planejamento, sem um pré-natal físico, psicológico e financeiro. Tem-se filhos porque é a consequência natural depois de um casamento ou de um ajuntamento, e deixam a vida rolar para ver que bicho vai dar. E é claro que são os filhos que sofrerão as consequências dessa atitude irresponsável dos pais.
As crianças nascem e lhes faltam mantimentos. Agora os pais desesperados só procuram uma resposta à pergunta: O que vai doer mais em nós: a tristeza de dizer não tem ao nosso filho que nos pede comida ou a tristeza que vamos sentir se entregá-lo à Vara da Infância e da Adolescência para ser adotado no Fórum da minha cidade?.
Se a decisão for para a doação, os pais devem se preparar para enfrentar ainda outro tipo de problema: a língua dos outros. As vozes daqueles que estão sempre longe para ajudar e perto para criticar: Que falta de humanidade, que maldade, que mãe (ou pai) é essa(e) que entrega o próprio filho para outras pessoas cuidarem. É o maior absurdo que existe nesse mundo. E também não faltarão as duras palavras dos que se dizem religiosos: Isso é coisa do Demônio. Imagine só negar o filho que Deus lhe deu para amar e criar, que desobediência a Deus, que falta de amor! É um pecado que não tem perdão. Tem que ser uma pessoa muito ruim para fazer uma coisa dessas.
Se os pais conseguirem vencer essas pressões internas e externas, e decidirem pela doação, haverá simultaneamente a dor da separação e o consolo tranquilizador de que a criança estará com uma família que escolheu ficar com ela para amá-la, suprir todas as suas necessidades.
Segundo a Bíblia, Deus é a favor da vida, tanto do corpo quanto da alma. Deus certamente não concorda com pais imaturos e egoístas que, mesmo sabendo que não têm a mínima condição financeira para criar um filho, decidem não entregá-lo para ser adotado por outro casal que pode e deseja fazê-lo.
Adotar uma criança é reconhecidamente um ato de amor. Porém o ato de abrir mão da companhia do seu próprio filho com certeza é, também, uma atitude que exige muito amor e respeito para com o fruto do seu ventre. É preciso que se diga: para se doar uma criança é preciso amá-la muito, não com o amor possessivo dos egoístas mas com o amor que vem de Deus, que é altruísta, misericordioso e sabe enxergar mais longe do que o aqui e o agora, sabe enxergar a possibilidade de evitar que seu filho amado seja mais uma criança de rua, desnutrida e a mendigar o pão. Assim, não sabemos quem está amando mais essa criança aqueles que a doam ou aqueles que a adotam.
Que esse tipo de amor esteja no coração de todos nós, pois assim Deus nos ama como pai e mãe. Estamos nós aproveitando ou desperdiçando nossos talentos, tempo e dinheiro com coisas fúteis que para nada se aproveitam? É tempo de investir na vida humana que Deus criou e ama. Não importa a sua idade, sempre há tempo de ser pai, mãe, avô ou avó para alguém que está sozinho no mundo.
- ALEXANDRE FONSECA DE MELO é funcionário público em Brasília





