Doação de órgãos - uma palavra de estímulo - Marco Aurélio de Freitas Rodrigues
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de dezembro de 1997
Marco Aurélio de Freitas Rodrigues 
Londrina inicia hoje o funcionamento de sua nova Central de Transplantes. Diferente da Central (CEPOT) que até então funcionou no Hospital Universitário, a nova estrutura, patrocinada pela Secretaria de Saúde do Estado, conta com pessoal, área física e materiais capazes de incrementar a Procura de Órgãos na cidade de Londrina e futuramente em uma área que se estende desde Jacarezinho até Apucarana.
A nova Central de Transplantes buscará de forma sistemática otimizar o aproveitamento de órgãos disponíveis para transplantes em nossa cidade e região. Há uma crescente demanda por órgão no Norte do Paraná. Todo ano aproximadamente 30-40 novos pacientes dão início a programas de hemodiálise só em Londrina. Outros 200, atualmente, já aguardam por um transplante renal. Dez pacientes em condições críticas aguardam por um coração, única esperança de permanecerem vivos. Os pacientes que aguardam transplantes de córnea excedem 200. A Central contará inicialmente com duas assistentes administrativas, uma assistente social e uma enfermeira (coordenadora), as quais receberão apoio técnico voluntário de uma comissão composta por médicos de várias especialidades envolvidas, bem como representantes do 17º Distrito Sanitário e da Associação dos Pacientes dos Renais Crônicos. Essa equipe, disponível 24 horas por dia, fará todo o trabalho de listagem, estatística, visitas às Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), abordagem das famílias dos doadores e informação às equipes médicas de Transplantes. A procura de órgãos sistematizada através de centrais com essas características faz com que um grande número de órgãos antes não aproveitados, passem a ser utilizados de forma ética e eficiente.
Em outros países e algumas cidade do Brasil essa experiência trouxe aumento considerável do número de transplantes. Também esse tipo de Central integrada com outras centrais do Estado e talvez do país, permitirá que pacientes há muito tempo em lista de espera e de difícil compatibilidade tenham melhor chance de obter órgão (lista única do Estado). Ao mesmo tempo os resultados desses transplantes serão melhores.
A Central dos Transplantes, entretanto, desempenhará plenamente suas funções se apoiada pelo tripé: comunidade, médicos intensivistas e pelos hospitais.
Os programas de Transplantes em todo o mundo obtiveram o êxito atual graças ao desenvolvimento clínico-cirúrgico da medicina e das drogas imunosupressoras (anti-rejeição). Sobretudo, essa evolução ocorreu estruturada nos elementos solidariedade e generosidade humanas. Doação de órgãos traduz esses conceitos na sua forma mais genuína e profunda. O consentimento para uma doação de órgãos é um momento que sempre emociona a todos envolvidos, já que as famílias, invariavelmente, tomam essa decisão em situação de grande pesar e oferecem os órgãos dos seus entes queridos de forma altruística. Do lado oposto, a gratidão dos pacientes receptores só pode ser expressada com a recuperação integral de suas próprias existências. Nesse momento em que surge a nova Central de Transplantes, esperança para tantos, gostaríamos que não fosse uma lei que determinasse quem é ou quem não é doador, mas o contínuo exercício da generosidade humana. Convidamos a população a conhecer a nova Central e colaborar ainda mais na divulgação desse trabalho.
Os médicos intensivistas são os profissionais que na maioria das vezes tratam dos pacientes em morte cerebral e potenciais doadores. A notificação à Central de transplantes desses casos e o esclarecimento às famílias sobre as condições dos pacientes, podem amenizar o sofrimento das mesmas e encorajar o processo de doação.
Finalmente, o hospital deve ser o grande suporte para essas realizações. Ao longo de quase 25 anos mais de 1.000 transplantes (rim, córnea, coração) foram realizados em Londrina. Os Hospitais, sempre ao lado dos médicos, garantiam as condições necessárias para a concretização desse espetacular avanço para Londrina e para o Paraná. Em 1973, o espírito pioneiro dos médicos com o suporte incondicional dos hospitais, foram realizados os primeiros transplantes renais de doador vivo e doador cadáver do Paraná. Naquela época, as barreiras pareciam intransponíveis e foram vencidas. As dificuldades vividas por esses hospitais, conveniados do SUS, para realização de procedimentos de alta complexidade e custos como transplantes são muito conhecidas. A Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), em nome dos médicos transplantadores, reconhece essas dificuldades e tem tentado sensibilizar o Ministério da Saúde, para que os hospitais e médicos possam receber de forma justa pelos custos dos transplantes. Mesmo enfrentando contínuos problemas, esperamos que os hospitais continuem a ser nossos fortes parceiros, para que os programas de transplantes não sofram solução de continuidade e que centenas de desvalidos não morram ou se perpetuem em infindáveis listas de espera.


