O Ministério da Saúde divulgou recentemente os números relativos aos transplantes realizados no Brasil durante o ano passado. Embora tenha sido registrada melhora em relação a 2007, ainda há muito o que fazer. Presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o nefrologista Valter Duro Garcia conversou com a FOLHA sobre a situação do Paraná no ranking nacional e a realidade dos transplantes no País.

Os números mostram que o Paraná está sempre entre os dez Estados onde os transplantes acontecem com mais frequência. O senhor entende que a nossa situação é boa?
O Paraná está em uma situação mediana, abaixo de Santa Catarina e Rio Grande do Sul na faixa de número de doadores por milhão e deveria estar mais próximo, porque tem um sistema de saúde muito semelhante. O Paraná poderia ter um nível de doadores maior, precisaria estar pelo menos entre os quatro melhores do País, que seriam São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Quais são os motivos para estarmos em desvantagem em relação aos outros estados do Sul?
Devo reconhecer que não tenho uma noção tão boa do Paraná porque a ABTO tem trabalhado muito pouco com o estado. Nosso critério é de sermos procurados. Quem nos procura para fazer cursos de capacitação de profissionais e outras atividades, nós atendemos. E nós não recebemos procuras do Paraná.

O senhor acredita que falta uma iniciativa e uma preocupação do Estado?
Sim. O estado de São Paulo não procura a ABTO e faz um trabalho muito benfeito, porque é um estado organizado internamente. Nós deixamos de nos preocupar com São Paulo e estamos trabalhando com os estados que mais precisam e que nos procuram.

Mas em alguns casos específicos, como transplante de pâncreas, rim e ossos, o Paraná está em primeiro lugar no ranking nacional. Por que isso acontece?
Em coração vocês também estão muito bem. Junto com o Ceará, são os dois estados que mais realizam esse tipo de cirurgia. Existem dois aspectos para alguns estados se destacarem tanto. O primeiro é ter uma equipe de transplantes altamente qualificada e motivada. A outra é a estrutura. O Paraná deve ter muitos bancos de ossos ativos, por exemplo, e ter uma equipe cardíaca muito empenhada.

Quais foram as ações tomadas em 2008 que fizeram os números gerais melhorarem?
Houve uma série de modificações. A ABTO trabalhou muito e tínhamos uma projeção de aumentar em 15% o número de transplantes (o número geral médio ficou em 10% de aumento). Fizemos cursos e reuniões com equipes de transplante em praticamente todos os estados. O Ministério da Saúde elaborou campanhas e várias centrais estaduais ofereceram cursos. São Paulo fez um ótimo trabalho, assim como o Ceará e Santa Catarina. Tivemos pelo menos 15 cursos de formação de coordenadores hospitalares para transplantes, reuniões para discutir a morte encefálica e manutenção de potenciais doadores e cursos para formação de coordenadores educacionais de transplante, palestras em escolas, empresas. Melhoramos a questão organizacional, logística e educacional. Foram vários setores que levaram a um bom aumento. Mas se esmorecermos, cai.

Fala-se muito da questão de estrutura física, como hospitais sem equipamentos e médicos despreparados, como um grande dificultador para os transplantes. Isso é realmente verdade?
Em algumas regiões sim. As regiões Norte e Nordeste possuem vários estados que não têm equipes nem central de transplante. Neste ano queremos trabalhar com esses locais para alavancar os transplantes por lá também.

Quais são as outras metas para 2009?
Temos um planejamento para dez anos que começou a ser implantado no ano passado. Temos que crescer entre 12% e 18% a cada ano para chegar em 2017 com 20 doadores por milhão de habitantes, o triplo do que tínhamos em 2007. O Brasil está muito atrasado nessa questão, precisamos trabalhar muito forte.

Por que temos um número tão pequeno de doadores?
Primeiro porque temos dificuldade de identificar as pessoas com morte encefálica nas UTIs pela questão da lotação dos hospitais e da falta dos testes, que são rigorosos, para a liberação dos órgãos junto ao Conselho Federal de Medicina. Depois tem a família que não autoriza ou não é localizada a tempo.

O governo tem feito sua parte para melhorar a situação dos transplantes?
Sim. Poderia fazer mais, mas tem auxiliado no financiamento das cirurgias e com algumas leis. Teremos várias portarias que vão ajudar bastante a parte organizacional, liberando financiamento, colocação de nomes em listas de espera e reconhecimento dos doadores vivos. Também teremos uma portaria que libera o uso de doadores com hepatite ou acima de 60 anos. Alguns estados, incluindo o Paraná, não usavam esses doadores. Essa é uma portaria que provavelmente vai melhorar a situação nesses locais.

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