Doação confirmada
Durante vários meses vínhamos alertando o mercado quanto ao posicionamento que a sociedade e os políticos deveriam tomar em relação à privatização do Banestado, o nosso ex-banco estatal. Em artigo publicado em junho passado, mencionamos que a preocupação era grande e o alerta também oportuno já que todas as exigências sobre o posicionamento da privatização deveriam ser formuladas no momento da venda. Inclusive perguntamos: quem iria competir na privatização com exigências alheias ao objetivo final do sistema bancário que sempre foi o lucro?
Alertamos inclusive que a negociação deveria ser realizada para se chegar a um denominador comum para que, futuramente, não chorássemos o leite derramado. Infelicidade esta, graças a Deus não sentida pelo saudoso ex-governador e qualificado político e administrador Ney Braga.
Perdemos dois patrimônios: uma cabeça pensante de reputação ilibada e uma estrutura de causar inveja aos principais bancos nacionais, nosso ex-Banestado. Sentimos na pele quando o presidente do Banestado, em recente pronunciamento, disse que não fechou agências as quais continham dois ou três funcionários e eram deficitárias com o cunho social que estas representavam. Para sua surpresa, relatou o presidente, houve agências que superaram as expectativas com relação ao lucro proporcionado.
Poderiam dizer os especialistas: como pode se afirmar que o Banestado foi doado? Convenhamos: quase 400 agências, 700 pontos-de-venda, estruturação em empresas coligadas e os dois maiores patrimônios: seus clientes e seus funcionários. Estes ficaram à mercê da batida do martelo, sendo adquirido pelo Banco Itaú pelo valor de R$ 1,625 bilhão com ágio de 274%.
Como se poderia alegar doação? Convenhamos mais uma vez: com o Banestado aberto, as agências deveriam contribuir com o percentual de 45% a título de compulsório, valores estes subtraídos da média do seus depósitos à vista.
O comprador do banco estatal, segundo declarações do senador Alvaro Dias no Senado, ficará cinco anos sem pagar compulsórios, em virtude de tê-lo adquirido através de leilão. Ainda segundo o senador o Banco Central estaria garantindo a isenção dos depósitos compulsórios ao comprador do Banestado sem explicar em edital tal regalia!
Da mesma forma, o valor de R$ 1,625 bilhão, deduzidos os R$ 434 milhões estipulados como preço mínimo, ou seja, a módica quantia de R$ 1,191 bilhão pagos a título de ágio, será deduzido no imposto de renda do comprador.
Daí o questionamento: por quê da regalia para o comprador? A quem interessava a privatização do Banestado? Dizíamos ainda. em agosto último, que era o momento de se formar uma comissão nomeando pessoas capazes, fazendo um pool social e político para que pudéssemos salvar nosso último banco de fomento paranaense.
O clamor singular, apesar das reuniões, ações impetradas pela bancada paranaense no Senado, não recebeu a atenção devida do Banco Central, do governo estadual e também de outros segmentos, talvez movidos por interesses outros.
Neste momento, parabéns ao Banco Itaú que ganhou o Banestado. Pois este irá ficar isento de compulsórios por cinco anos, abatendo do imposto de renda os valores pagos a maior do preço mínimo exigido no leilão. Daí novo questionamento: por quê foi tão sub avaliado o preço mínimo? Com a resposta o valor pago pelo Banco Itaú.
O que teria agora a sociedade a fazer? Monitorar passo a passo os fechamentos das agências que ocorrerão fatalmente. Provavelmente, iniciando-se pelas agências pioneiras onde o comprador do banco já possui estabelecimento bancário. Como vão ficar os funcionários?
Vamos lançar um alerta ao mercado: que fique o compromisso do Banco Itaú em apresentar mensalmente o valor do depósito à vista do Banestado recém adquirido, qual sua participação no mercado e qual a participação do Banco Itaú no mercado. Pois, com a regalia do compulsório, será que o depósito do Banestado irá subir mais? Isto porque o Banco Central está dando garantias de que o compulsório do Banestado será zero!
Adeus ao Banestado! Banco de fomento que sucumbiu a ingerências e picuinhas pessoais. Mais uma vez os lucros dos banqueiros privados serão engordados, em detrimento ao povo que construiu o patrimônio ora doado. Aproveitando os dizeres do primeiro artigo sobre o assunto: Agora, meu amigo, não adianta chorar o leite derramado.
- PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro em Londrina





