A questão mais imediata do mundo virtual trata da discussão em torno do bug do milênio. À medida que esta questão passa a ser superada, há um outro assunto que certamente tomará parte considerável de nosso tempo neste início de um novo século. Em texto que denomina de ‘‘A esquizofrenia tecnológica’’, o sociólogo Bruno Latour realiza uma rápida reflexão sobre a relação de amor e ódio que se estabelece entre o usuário e a Internet.
Destaca Latour que, ao minuto seguinte de fazermos entusiasticamente a apologia do sistema, podemos nos flagrar praguejando contra os dissabores que ele apresenta. A verdade é que esta situação aponta para uma revolução ainda a ser construída nesta área tecnológica e suas mais diversas correlações.
Enquanto isso não acontecer plenamente, é preciso descobrir formas de como fugir da ditadura que o sistema nos impõe, tornando-o efetivamente útil às nossas reais necessidades. Ao concluir sua reflexão, o sociólogo destaca que ‘‘resta saber como passaremos das sociedades virtuais às sociedades virtuosas - a mesma palavra em latim (virtus) tendo engendrado esses dois termos, por ora totalmente opostos’’.
É coerente admitir que o progresso tecnológico, na área da informática, trouxe avanços significativos para a humanidade, porém na mesma coerência é mister admitir a existência de armadilhas que esta revolução esconde, fazendo do usuário, muitas vezes, mais um escravo do que um beneficiário. Após 36 anos de IBM e falando do que mais entende, Jean Paul Jacob, formado pelo ITA e que não usa a Internet para fazer compras, fornecendo endereço eletrônico falso, diz que assim procede para não ficar à mercê da ditadura virtual.
Ele diz que ‘‘há dez anos, acreditava-se que a informática iria tornar a nossa vida melhor, que iríamos trabalhar menos, ter mais tempo para o lazer, semana de trabalho de 35 horas. Em vez disso, todas as invenções que fizemos nos mantêm mais ocupados. O celular nos segue em todo lugar e interrompe qualquer coisa que estivermos fazendo. Levamos nosso trabalho para casa dentro de um computador portátil. O efeito tecnológico na sociedade é algo que não sabíamos prever. E a reação, diante da possibilidade de que os objetos vão começar a pensar, pode não ser bem-aceita. Talvez não seja o mundo que queremos’’.
Ainda não temos, e nem sabemos quando iremos ter, todos os referenciais de vida decorrentes do impacto do avanço tecnológico na informática. Constatam-se, porém, as primeiras patologias decorrentes do impacto que esta tecnologia gera sobre as pessoas, o que não significa que no retorno às cavernas estaria a solução. A questão aqui é que estamos sentindo cada vez mais que o nosso sistema nervoso tem um limite para absorver todas as informações que chegam até nós, o que tem levado muitos - e vejo um bem nisso - a se questionar sobre o modelo de vida imposto pela modernidade.
É cada vez mais frequente o depoimento de pessoas que consideram que estamos dispensando tempo precioso que poderia ser utilizado em situações mais úteis, tentando aprender a manipular instrumentos sofisticados que logo serão superados num círculo vicioso ascendente. Scott McNealy, presidente da Sun Microsystems, criticando seu principal oponente, diz que ‘‘quando se compra um programa da Microsoft, o usuário é obrigado a levar uma infinidade de funções junto, que dificilmente vai utilizar, mas acaba sendo convencido que tem que aprender tudo’’.
A tecnologia dos computadores deveria criar avanços que facilitassem as tarefas humanas, sem que para isso precisassem estimular necessariamente as paranóias. Neste sentido é prudente desconfiar dos pacotes e das novidades tecnológicas que nos assediam diariamente. Por mais que o Bill Gates insista em dizer que tudo o que brilha no seu reino é ouro, a cada dia que passa, nós, os que apenas dominamos perifericamente o que por lá é pensado e produzido, podemos chegar à conclusão que nem tudo o que ele diz é verdade e que poderemos ser felizes trilhando caminhos alternativos. Neste sentido, não custa nada pensar que, diante de uma aparente avanço tecnológico, pode de fato estar escondido um retrocesso.
Além da obsolescência programada dos computadores - um verdadeiro crime contra a economia popular - há que se avaliar a complexidade de comandos dos mesmos. McNealy aponta uma solução simples e que, certamente, agradaria à maioria dos cidadãos angustiados em apertar botões certos ou deslizar o mouse com desembaraço. Diz ele que ‘‘os telefones, os automóveis e até as geladeiras, atualmente, dependem de chips para funcionar. Nem por isso se tornaram mais complexos’’.
McNealy prognostica que, em decorrência desta complexidade externa, os PCs se tornarão insignificantes para a nossa civilização muito antes do que se espera. Embora suspeito, por ser um dos principais concorrentes de Bill Gates, seu discurso me agrada. De qualquer forma esperemos que, na queda-de-braço pelo perverso monopólio do poder virtual, prevaleça o poder da virtude, como resultado de uma equação que ainda precisa ser resolvida.
- TARCíSIO VANDERLINDE é professor universitário em Cascavel

mockup