A Folha publicou ontem na primeira página uma foto da agência de notícias France Presse assinada pelo fotógrafo Eric Feferberg. A foto é de um menino do vilarejo de Thiet, região sul do Sudão, na África. Ao fundo, o Sol despede-se da linha do horizonte e um amarelo desmaiado toma conta do canto esquerdo do ambiente composto pelo marrom do solo e o negro nu do menino. As árvores distribuídas em profundidade, do segundo plano ao infinito, assistem imóveis ao menino arrastando um bezerro com uma corda. O bezerro resiste e parece empacado, não quer continuar. Ambos são magros e é impossível pensar em quem terá pior destino. Em boa parte dos países africanos, viver é apenas um ato de sorte. As opções são poucas: nascer morto pela desnutrição da mãe; morrer pela própria desnutrição; e caso se chegue à adolescência, morrer numa das muitas guerras envolvendo clãs tribais.
O fotojornalismo tem esses encantos de poder mostrar numa imagem estática belezas e tragédias. Diferente de uma imagem dinâmica de cinema ou TV, a imagem estática nos convida para a meditação. Temos sob nossos olhos um fato para não ser ignorado, embora façamos esforços para esquecê-lo. Pensamos que a África está muito longe e, em nosso individualismo militante de final de século, tudo que incomoda nossas consciências deve ser empurrado para os confins de um deserto ou de uma floresta africana. Depois de um café e entre uma torrada e outra, diante da imagem estática do menino nu e do bezerro que se nega a trilhar seu destino, somente sobrarão em nossas almas um ó de espanto, um não-sei-o-quê de indignação momentânea e um dar de ombros do tipo não tenho nada com isso.
No dia 5 de setembro, a Folha publicou uma foto, também em primeira página, do seu repórter-fotográfico Josoé de Carvalho. A foto era de uma desocupação de uma fazenda em Sapopema feita pela Polícia Militar durante a madrugada daquele dia. Do lado esquerdo da foto, uma fila de caminhões com os pertences das famílias sem terra e um cachorro pulguento procurando seus donos. Do lado direito, uma fila de homens, mulheres e crianças aguardando destino. Uma foto comum se não fosse o fato de que naquele dia chovia e fazia muito frio. No centro, uma família desbotada pelo sofrimento. O pai estendendo a mão em busca de algo que explicasse o que estava ocorrendo. Do lado do homem, a mãe e a filha descalças. Mas focalizemos apenas a criança, uma menina loirinha de uns 4 anos, não mais, vestindo uma blusinha simples, uma saia xadrez azul, com os pés nus plantados no cimento e com um olhar tão distante quanto a eficácia de nossa política agrária. Aqui também as opções são poucas: a morte pela desnutrição, por pneumonia ou bala perdida.
Ignoro o caminho que tomou a família e a menina sem terra da foto, assim como o do menino que puxava um bezerro num vilarejo no Sudão. Mas estas imagens estáticas vão ficar ali, no papel do jornal, para lembrar aos que vierem depois, que mesmo com toda a tecnologia deste final de milênio, nós ainda tínhamos para com os nossos semelhantes o tratamento bárbaro da indiferença.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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